As novidades e as raridades do cinema. Estréias, clássicos e outros filmes menos cotados. Paradoxo: 5 anos. Paradoxalmente Pensando o Cinema.




















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Rodrigo de Oliveira
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paradoxo
Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Novas diretrizes

Não sou apreciador dos filmes de Daniel Filho – e já deixei isso bem claro em diversas críticas postadas por aqui (vide Muito Gelo e dois Dedos D’água e Se Eu Fosse Você). No entanto, tive de dar o braço a torcer ao assistir a sequência deste último, grande fenômeno do cinema nacional, que funciona bem como comédia popular. Tempos de Paz, mais uma parceria entre o diretor e Tony Ramos, mostra que 2009 está sendo um ano feliz para Daniel Filho – mesmo que as qualidades do longa recaiam mais em escolhas anteriores ao cineasta.

O longa-metragem, baseado na peça Novas Diretrizes em Tempos de Paz, é ambientado em 1945, ao final da Segunda Grande Guerra, e conta a história do ator polonês Clausewitz (Dan Stulbach), que chega ao Brasil para começar nova vida. No seu caminho está o chefe de imigração da alfândega, Segismundo (Tony Ramos), que duvida das intenções do estrangeiro quando este conta que é um agricultor. Segismundo possui um passado nebuloso e sua breve relação com Clausewitz poderá fazê-lo repensar seus atos pretéritos e futuros.

O primeiro acerto de Daniel Filho foi manter a dupla original da peça de teatro escrita por Bosco Brasil. Tony Ramos interpreta com muita propriedade o taciturno Segismundo, fazendo um ótimo contraste com o sorridente e esperançoso Clausewitz. Dan Stulbach também se destaca – lembrando ainda mais um Tom Hanks brasileiro quando buscamos na memória seu papel em O Terminal, de Steven Spielberg.

Além da excelente atuação da dupla principal, outra grande qualidade do filme é o texto de Brasil que, como não poderia deixar de ser em um filme basicamente de diálogos, leva a trama pelos mais diversos caminhos emotivos – tristeza, amargura, alegria, esperança, etc. Acredito que tudo isso já estava na peça de teatro, portanto esse é um mérito que não se pode tirar do roteirista Bosco Brasil. Mas é um que se pode tirar de Daniel Filho.

Parece que o cineasta se manteve engessado no formato teatral, transformando seu filme em uma peça de teatro filmada. Se formos pensar que os trabalhos anteriores de Daniel Filho mais pareciam especiais de televisão estendidos e ruins, parecer-se com uma peça de teatro não é nada mal. Mas era necessário uma ambição maior para que o longa-metragem tivesse qualidades em si, e não pelo material que estava sendo adaptado.

A mise-en-scène é totalmente teatral. Somos apresentados a um cenário minimalista, composto basicamente por uma mesa e duas cadeiras (existem outros itens na sala, mas nunca são destacados para enriquecer o quadro). Daniel Filho deixou que o confronto de idéias entre os personagens fosse o fio condutor do longa-metragem, o que dá força aos diálogos – mas enfraquece o filme por se ater basicamente a enquadrar os personagens de forma convencional.

Se não bastasse isso, existe um lado ainda mais fraco de Tempos de Paz: é exatamente os momentos nos quais Daniel Filho sai de sua cadeira de diretor para interpretar um personagem misterioso, que desfila pelo filme e acaba chegando ao seu final sem dizer a que veio. O flashback que apresenta o passado deste homem é totalmente deslocado, visto a gratuidade e caráter meramente explicativo. Como agravante, ouvimos durante quase todo o longa-metragem a história de Clausewitz e não somos presenteados com cenas do seu passado – o que só mostra que a produção não teve dinheiro para recriar uma Polônia na década de 40.

Fazendo um cálculo dos erros e acertos do filme, Tempos de Paz acaba saindo no saldo positivo, como já disse, muito mais pelas qualidades anteriores da peça de teatro do que como um longa-metragem. Ainda falta muito para que Daniel Filho consiga ser um diretor de cinema tão bem conceituado quanto foi na televisão. Com algumas escolhas mais ousadas, este Tempos de Paz poderia ter sido um ponto de virada. Não é.

Tempos de Paz
Dir.: Daniel Filho
Com Tony Ramos, Dan Stulbach, Daniel Filho, Louise Cardoso, Aílton Graça, Anselmo Vasconcelos
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

4:57 PM

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Número 1 sem picles

A trama de Apenas o Fim é simples: De uma hora para outra, garota chega para seu namorado e afirma que está fugindo de tudo e de todos. Seu paradeiro será desconhecido e esta viagem será feita apenas por ela. Se já não bastasse essa bomba, os dois têm apenas uma hora para despedidas. Poderia ser um filme bobo, talvez uma versão estendida de Malhação. Mas não. É um filme delicioso, bem-humorado, que conversa muito bem com uma parcela de uma geração que nunca se viu retratada no cinema nacional. Ou você, assim como eu, que está por volta dos 25 anos, lembra-se de muitos filmes brasileiros que fizeram isso?

Basta fazer um recapitula básico para lembrar que o cinema norte-americano tem diversos filmes que definiram gerações por décadas e décadas. Seja Juventude Transviada nos anos 50, sejam os filmes de John Hughes nos anos 80, os jovens estadunidenses tem um referencial fortíssimo no cinema. Referencial este que é precário no Brasil. Portanto, acho salutar ver personagens tão identificáveis em um filme produzido no país.

Não digo aqui que todos os jovens do Brasil vão se identificar com Apenas o Fim. Como afirmei no começo, o filme mira uma parcela de uma geração. Aquela parcela que acordava cedo para assistir a Cavaleiros do Zodíaco na Manchete – e que não perdia suas reprises no resto do dia; que não se furta a comer no McDonald’s, mesmo reclamando sempre do tamanho do sanduíche; que jogou – ou ainda joga – videogame (seja Nintendo ou Playstation); Enfim, uma parcela que adora cultura pop e que é taxada como nerd ou, no mínimo, esquisita por causa disso.

Os diálogos espirituosos são o grande destaque de Apenas o Fim, atrelados as ótimas performances da dupla principal, formada por Gregório Duvivier e Érika Mader. Soa muito natural e orgânico os diálogos entre o casal, mesmo que o turbilhão de referências pudesse pressupor o contrário. Tudo está na qualidade da dupla – com destaque para Duvivier, que cria um filhote de Woody Allen impagável. O elenco de apoio tem seus momentos também, com uma pequena participação de Marcelo Adnet (não muito inspirada, é verdade) e de um mala-sem-alça sem precedentes, interpretado por Álamo Facó, que rouba a pequena cena na qual aparece.

A narrativa de Apenas o Fim trabalha com dois momentos distintos da vida do casal, que se entrelaça no desenrolar da trama. Vemos a última hora dos dois juntos, e suas discussões espirituosas sobre o fim, e também uma tarde perdida na vida dos namorados, na qual fazem um joguinho de perguntas e respostas – formulaico, mas que soluciona a necessidade de aprofundar o passado do casal. Diferente das cenas no presente, o diretor Matheus Souza escolheu por criar estas sequências do passado em preto e branco, criando um interessante mosaico de situações.

Souza, para um diretor de primeira viagem, ainda estudante na época, mostra bastante maturidade no seu trabalho de estreia. O filme ainda merece mais elogios quando se tem noção de que foi filmado em apenas 12 dias, com poucos recursos, e por estudantes da PUC-Rio. Existe até uma brincadeira dentro da história, metalingüística, que sugere uma transformação dos personagens em produtores e dos produtores em personagens. Uma pequena citação pós-moderna em um filme que poderia ser encarado como um exemplar de John Hughes brasileiro deste novo século.

Apenas o Fim
Dir.: Matheus Souza
Com Gregório Duvivier, Érika Mader, Marcelo Adnet, Nathalia Dill, Álamo Facó, Julia Gorman, Anna Sophia Folch
Cotação Paradoxo: Vale 89% do ingresso

7:09 PM

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Apenas o Fim

O grande problema da segunda parte do épico de Steven Soderbergh sobre o mitológico Che Guevara é ser muito diferente da sua primeira parte. Enquanto que em Che – Parte 1 tínhamos uma narrativa que relacionava e entrelaçava muito bem diversos momentos da vida adulta do guerrilheiro argentino, Che 2: A Guerrilha nos coloca na Bolívia, com uma trama arrastada, linear e, por vezes, enfadonha. Não é estranho que uma “seqüência” seja inferior ao filme original. Só é difícil entender o porquê disso, visto que os filmes foram produzidos ao mesmo tempo e pensados como um grande épico.

Em Che 2 acompanhamos Guevara – ou melhor, Ramón (ou quem sabe, Fernando?) – em sua última grande revolução. Disfarçado, o guerrilheiro entra na Bolívia para libertar o país do jugo da ditadura militar e encabeça uma milícia que, assim como na Revolução Cubana, se embrenha na mata, com condições precárias e muita dedicação. É claro que o fato de Guevara estar na Bolívia acaba chamando a atenção não só do governo daquele país, como também dos Estados Unidos, que participa ativamente na sua tentativa de captura.

Mesmo que o ritmo da história de Steven Soderbergh deixe a desejar, existem méritos nesta segunda parte da história. O fato de a produção manter a língua espanhola como o idioma corrente nem deveria ser motivo de elogios, visto que seria dever dos produtores. Mas sabemos como é Hollywood e sua ojeriza a legendas, portanto é pertinente ressaltar essa qualidade de Che 2. E não há como não elogiar a atuação de Benício Del Toro como Che Guevara. Assim como na primeira parte, o ator toma a responsabilidade do filme para si e nos brinda com mais uma ótima representação do líder revolucionário argentino. Sua performance é tão destacada que até nos faz esquecer de alguns deslizes de casting – como uma deslocada Franka Potente tentando arranhar um espanhol – ou da subutilização do ótimo Demián Bichir como Fidel Castro, que tem apenas pequenas aparições no começo da trama.

A ausência de Castro nesta segunda parte da história, da derrocada de Guevara, me soou como uma tirada de pé de Soderbergh. Do tipo: “não quero mexer com Fidel, que está vivo ainda e pode me incomodar”. Não é a toa que a única crítica feita à situação adversa de Guevara em comparação ao conforto que Castro gozava em Cuba sai da boca de um boliviano. Nenhum cubano no filme critica a diferença de atitude entre Guevara e Castro. Muito menos o próprio Che, que está abnegado e decidido que o seu papel é libertar a América Latina.

Como Guevara é um personagem histórico e bastante conhecido, creio que não estrago a surpresa de ninguém ao dizer que o revolucionário morre ao final do filme. O problema é que isso parece bastar para Soderbergh, fazendo-o acabar a história logo depois. Concordo que uma trama centrada em uma figura tem o direito de se dar por encerrada em sua morte – até porque não existe muito mais a se contar depois disso, visto que a pessoa, de fato, morreu. Mas Guevara não era qualquer um. Sua vida e morte ecoam até hoje. As inúmeras camisetas com seu rosto estampado e livros escritos a seu respeito corroboram essa afirmação. Portanto, encerrar o filme apenas com o último suspiro de Che me pareceu vazio demais. Quais foram os fatos que se desenrolaram após sua morte? Como Castro recebeu a notícia? Ou a América Latina como um todo?

Claro que o fato do roteiro ter sido baseado nos escritos dos diários de Guevara eximiria a culpa do script de incluir qualquer acontecimento posterior à sua morte. No entanto, eu duvido que, amordaçado em seu cativeiro, o revolucionário tenha tido oportunidade de escrever sobre seus últimos momentos. Ou seja, aquelas cenas vieram de pesquisas feitas pelos roteiristas e de sua imaginação fértil. Não custava contextualizar um pouco mais.

O que fica depois destas quatro horas de épico é o sentimento de que esta história poderia ser contada com mais economia, em pouco mais de duas horas. Bastava encurtar um pouco a primeira parte (nada de muito significativo) e transformar estas duas horas do segundo em meia hora, organicamente misturada a brilhante montagem daquele primeiro filme.

Che 2: A Guerrilha
Dir.: Steven Soderbergh
Com Benicio Del Toro, Demián Bichir, Joaquim de Almeida, Franka Potente, Catalina Sandino Moreno, Lou Diamond Phillips, Rodrigo Santoro, Matt Damon
Cotação Paradoxo: Vale 65% do ingresso

7:17 PM

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Três irmãs

Eduardo Coutinho não gosta de se repetir. O cineasta deixou isso bastante claro nos seus últimos trabalhos, cada um com uma particularidade bastante perceptível. Se em Jogo de Cena, lançado em 2008, o diretor já brincava com as barreiras entre a verdade e a ficção, em Moscou, Coutinho tenta apagar a linha que separa o ensaio da realização – ou, por que não dizer, a linha que separa o documentário do filme de ficção.

Para tanto, Coutinho convidou o grupo teatral mineiro Galpão para um exercício: passar três semanas montando uma versão de As Três Irmãs, peça clássica do russo Anton Tchekhov. Não é necessário ser especialista em teatro para perceber que este é um tempo bastante curto para montar um espetáculo. Coutinho sabe disso. Em nenhum momento o cineasta mostra almejar uma adaptação fiel de As Três Irmãs, muito menos documentar os bastidores de uma companhia de teatro. Seu real objetivo é mostrar trechos da peça, misturado a depoimentos dos atores – por vezes verdadeiros, outras, fictícios – e envolver a platéia em um “jogo de cena” que é rico, mesmo que, em alguns momentos, um tanto quanto hermético.

Digo isso porque demorei bastante para me deixar envolver pelo exercício de Eduardo Coutinho. Percebi, aliás, que por muitas vezes, o texto de Tchekhov salvou passagens pouco inspiradas do documentário – o que só prova a força do russo, que mesmo sendo apresentado em doses homeopáticas, consegue ser interessante. Quando finalmente somos imbuídos do espírito do documentário, ele logo termina, deixando um gosto de obra inacabada. Totalmente intencional, é claro.

Logo no início de Moscou, Eduardo Coutinho explica que não pretende montar aquela peça por completo. Através de workshops, o cineasta – ao lado do ator e diretor Enrique Diaz – constrói um peculiar retrato da preparação dos atores para um espetáculo. Os momentos mais interessantes de Moscou, certamente, são estes trechos do que parecem ser as memórias e os medos dos atores, trazidos a tona através de um exercício proposto por Diaz. Não temos certeza, no entanto, se o que aquele grupo teatral fala é, realmente, a verdade ou apenas mais um artifício para compor seus personagens.

Essa dificuldade em perceber o real do fictício conversa com o longa anterior de Coutinho, o excelente Jogo de Cena. No entanto, diferente daquele, Moscou não consegue ser tão envolvente. Talvez careça mais do fator humano, tão presente nas histórias de Jogo de Cena - e que aparecem timidamente em Moscou, nos exercícios citados acima. Mesmo quando somos apresentados a trechos pungentes de As Três Irmãs, não é fácil se desvencilhar da idéia de que estamos vendo performances teatrais. Isso, no entanto, não transforma Moscou em um exercício vazio. É sempre interessante observar as maquinações de Eduardo Coutinho, um dos maiores nomes do cinema brasileiro.

Mesmo que Moscou empalideça ao lado de filmes como Edifício Master, Peões ou o já citado Jogo de Cena, Coutinho tem crédito mais do que suficiente para inventar novas formas de contar suas histórias. No fim das contas, o documentário acaba transformando o espectador em um curioso em relação à obra de Tchekhov. Ao menos, posso falar por mim.

Moscou
Dir.: Eduardo Coutinho
Com Enrique Diaz, Eduardo Coutinho, Antônio Édson, Arildo de Barros, Beto Franco, Chico Pelúcio, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia del Picchia, Paulo André, Rodolfo Vaz, Simone Ordones, Teuda Bara, Bel Garcia
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso

Amanhã, em cartaz no Paradoxo: Preview de Toy Story 3, nova animação da Pixar, que continua as aventuras dos brinquedos de Andy

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10:19 PM

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Preview: A Hora do Pesadelo

Não sou fã de remakes. Não sou fã de Freddy Krueger. Não sou fã da saga A Hora do Pesadelo, muito menos de Michael Bay (que serve de produtor para esta nova versão). No entanto, estava curioso para saber como algum ator que não Robert Englund poderia interpretar o assassino das garras metálicas nos cinemas. Até porque, o ator em questão é o ótimo Jackie Earle Haley, de Pecados Íntimos e Watchmen.

No fim das contas, o trailer mostra muito pouco do transformado Freddy Krueger. Os fãs, mesmo com o pouquíssimo mostrado neste preview, já começaram a reclamar do visual queimado do vilão e de sua voz. É cedo ainda para falar alguma coisa, visto que o longa-metragem só estreia ano que vem. Até lá, muito pode ser feito em relação à maquiagem. Quanto à voz, é um exagero dos xiitas de plantão. Em Watchmen, Haley ganhou a admiração de todos pela sua caracterização de Rorschach exatamente pelo trabalho vocal. Portanto, que tal um voto de confiança?

Caso esteja curioso para observar o trailer do novo A Hora do Pesadelo, confira logo abaixo.



A Hora do Pesadelo (Nightmare on Elm Street)
Estreia EUA: 30 de abril de 2010
Estreia BRA: Não se sabe

Dir.: Samuel Bayer
Com Jackie Earle Haley, Rooney Mara, Kyle Gallner, Katie Cassidy
Expectativômetro: 6/10

7:17 PM

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Three Lovers

Triângulos amorosos já foram explorados incontáveis vezes no cinema, com resultados que variam entre o clichê e o sublime. Amantes, do diretor James Gray, fica situado no meio destes dois extremos, pendendo mais para o lado deste último. O roteiro apresenta idéias já vistas antes, situações que conhecemos de antemão, mas consegue envernizar uma trama manjada de tal forma que acabamos totalmente imbuídos e cúmplices de seus personagens.

Leonard (Joaquin Phoenix) sofre de transtorno bipolar e é cuidado de perto pelos pais, Reuben (Moni Moshonov) e Ruth (Isabella Rossellini). O rapaz tem passado um período difícil desde que sua noiva o abandonou – Leonard chega ao ponto de tentar o suicídio, tamanha sua dor. Tudo pode mudar quando ele conhece Sandra (Vinessa Shaw), a bela filha do futuro sócio de seu pai. O romance tem tudo para dar certo, com aprovação de ambas as famílias e tudo. No entanto, Leonard conhece sua nova vizinha de prédio, Michelle (Gwyneth Paltrow), que o arrebata com seu jeito extrovertido e alegre – tudo o que Leonard não é no momento. Não demora muito para que ele perceba que está muito mais atraído pela vizinha do que por sua pretendente. O que Leonard não sabe é que Michelle pode não ser quem ele imagina.

O roteiro é hábil em brincar com as expectativas do espectador e retrabalha o velho conceito de que as escolhas que se toma são irreversíveis. O caso de Leonard é emblemático. Dividido por duas belas mulheres, o rapaz logo percebe que terá de agir, muito mais baseado em seus instintos do que pela razão. Joaquin Phoenix pontua muito bem os vários momentos por que passa o seu personagem, em uma atuação segura e cheia de nuances. Notem como ele apresenta diferentes facetas de acordo com quem está o acompanhando e como sua latente vulnerabilidade é sempre escondida por uma forçada felicidade. É uma pena que este seja, provavelmente, seu último filme, já que Phoenix abandonou o cinema para se entregar à insanidade ao rap.

Gwyneth Paltrow surpreende em um papel diferente do que estamos acostumados a vê-la, mesmo que encare o ingrato e batido papel da garota problema, sem rumo, que apenas bagunça a cabeça do protagonista. A atriz consegue dar cores próprias para sua Michelle, fazendo com que o espectador se aproxime. É bem verdade que estamos acompanhando a trajetória de Michelle sob a ótica de Leonard. Portanto, nunca sabemos bem o que esta mulher sente ou pensa realmente. Mesmo sendo difícil tomar partido a favor dela, visto o seu histórico pouco estável, não é difícil entender porque o rapaz fica tão embriagado por aquela figura com personalidade tão diferente da sua, que precisa ser cuidada.

Por isso é interessante o paralelo que o roteiro faz entre os dois relacionamentos de Leonard. Enquanto que, em relação à Michelle, ele pode ser a pessoa sensata e centrada, com Sandra, a coisa muda de figura. Ela sabe do passado instável de Leonard e se prontifica a tomar conta dele. O rapaz, no entanto, não parece muito afeito a isso. Vinessa Shaw ganha pouco tempo de tela, mas consegue fazer com que sua presença seja notada pelo espectador. Não é difícil torcer por ela. O mesmo pode ser dito de Isabella Rossellini, que precisa apenas de uma cena para roubar a atenção para si – quem viu a cena da escada, na festa de ano novo, entende o que digo.

O diretor James Gray, que já havia feito um filme digno de nota em Os Donos da Noite (também com Joaquin Phoenix), entrega mais um belo trabalho, conseguindo habilmente construir uma trama interessante, fugindo dos piores clichês do gênero. Com uma divulgação pequena, Amantes está quase escondido nas poucas salas de cinema em exibição. Mas vale uma olhada, nem que seja posteriormente em DVD.

Amantes (Two Lovers)
Dir.: James Gray
Com Joaquin Phoenix, Gwyneth Paltrow, Vinessa Shaw, Isabella Rossellini, Moni Moshonov, Elias Koteas
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso

Amanhã, em cartaz no Paradoxo: Preview do remake de A Hora do Pesadelo, estrelando Jackie Earle Haley como o assassino Freddy Krueger

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5:23 PM

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

O Velho e o Ar

Não tenho mais palavras para definir os estúdios Pixar. A cada novo longa-metragem somos apresentados a personagens e experiências únicas, com tramas criativas, cheias de diversão e emoção. Up – Altas Aventuras é o décimo trabalho do estúdio, que atingiu uma invejável marca de não errar a mão em suas produções. Um filme que coloca um idoso ranzinza e um escoteiro gordinho e tagarela como protagonistas pode ser considerado corajoso apenas por isso. Mas vai além, trazendo uma história que ao mesmo tempo pode levar o espectador aos risos e às lágrimas.

Acompanhamos a trajetória de Carl Friedricksen, um senhor de idade que está aprisionado às suas lembranças. Viúvo do grande amor de sua vida, Carl acredita que manter a casa em que vive é importante para ajudar a preservar a memória de sua esposa. O que pode atrapalhar os planos do velho é uma empreiteira disposta a derrubar sua residência para construir modernos prédios no lugar – nem que para isso, tenham de mandar o velho Carl para o asilo. Sabendo disso e sonhando com uma aventura desde os tempos de criança, Carl amarra milhares de balões em sua casa e parte para a América do Sul, a fim de encontrar o Paraíso das Cachoeiras, lugar onde ele e sua esposa sempre desejaram visitar. Não estava nos planos, porém, um intruso mirim chamado Russell, que se escondeu na casa de Carl para ajudá-lo e ganhar mais um distintivo dos escoteiros.

“Uma lágrima para cada riso”. John Lassetter, diretor criativo da Disney/Pixar, disse em diversas entrevistas que acredita piamente no lema de Walt Disney, que para cada cena divertida, é necessário existir uma passagem que emocione o espectador. Nunca foi tão verdade em um filme da Pixar como em Up – Altas Aventuras. Logo no início do filme, quando conhecemos Carl ainda criança encontrando sua futura esposa, Ellie, já vemos exemplos desta máxima. A seqüencia na qual acompanhamos o amadurecimento do casal, suas alegrias e agruras até o falecimento de Ellie, é pungente como poucas cenas no cinema de animação – quiçá em qualquer tipo de mídia. É difícil segurar as lágrimas, visto a total e imediata simpatia e afinidade que sentimos por Carl e Ellie.

Mas não pense que Up é um filme para baixo (e o trocadilho é intencional). Logo que o filme engrena, somos levados a aventuras divertidíssimas ao lado de Carl e Russell, que aprendem a conviver um com o outro se mostrando igualmente importantes para a evolução de ambos como seres humanos. Enquanto Carl necessita, mesmo sem saber, de uma pessoa que o faça companhia, que lhe transmita carinho e para qual possa passar seus conhecimentos, Russell carece de uma figura paterna, visto que seu pai não parece ter tempo para tanto.

Na cópia dublada em português, a presença marcante de Chico Anysio é um achado. Uma excelente escolha dos diretores de dublagem que escolheram uma voz ímpar, totalmente condizente com a figura quadrada de Carl Fredricksen. Seu filho, Nizo Neto, competente dublador profissional, também empresta a voz para um dos personagens, o cachorro Dug – que fala com humanos usando uma imaginativa coleira tradutora. Por falar em Dug, os cães de Up são tão criativos quanto todo o conceito da casa voadora ou da ave misteriosa perdida na Amazônia – mas não entrarei em maiores detalhes sobre isso, para não estragar a surpresa de quem ainda espera assistir ao filme. Aliás, a palavra de ordem em Up é imaginação. Quem não engolir o conceito de uma casa voadora, provavelmente não vai ficar muito impressionado com outros personagens que surgem na telona no decorrer da narrativa.

Usando o 3D acertadamente para criar uma idéia de perspectiva, a Pixar novamente acerta em mais um trabalho. Concordo totalmente com algo que li (infelizmente não lembro a fonte) que dizia que o estúdio deixou de fazer filmes infantis que os adultos curtem para criar filmes adultos que as crianças adoram. Uma boa forma de caracterizar o estúdio que nunca erra.

Up – Altas Aventuras
Dir.: Pete Docter e Bob Peterson
Com as vozes originais de Ed Asner, Christopher Plummer, Jordan Nagai, Bob Peterson, Delroy Lindo e John Ratzenberger
Com as vozes nacionais de Chico Anysio, Jomeri Pozzoli, Eduardo Drummond, Nizo Neto, Reginaldo Primo e Anderson Coutinho
Cotação Paradoxo: Vale 93% do ingresso

Amanhã, em cartaz no Paradoxo; Amantes, novo filme do diretor James Gray, com Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow

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7:12 PM

Sexta-feira, Outubro 02, 2009

Traição no paraíso

O título do novo trabalho do diretor Heitor Dhalia, À Deriva, não podia estar em maior sintonia com os personagens deste seu belo e melancólico longa-metragem. Alçado ao patamar de jovem-cineasta-que-deve-ser-conferido após o excelente O Cheiro do Ralo, Dhalia apresenta aqui um filme bastante pessoal e totalmente afastado do estilo de seus dois longas anteriores. E acerta a mão mais uma vez.

Em À Deriva, conhecemos a família da jovem Felipa (Laura Neiva). Em férias na paradisíaca ilha de Búzios, Felipa começa a desfrutar os prazeres da juventude, no seu despertar para a adolescência, ao mesmo tempo em que descobre um fato que lhe tirará o chão debaixo dos pés: seu pai, o escritor Mathias (Vincent Cassel), está traindo sua mãe, Isabel (Débora Bloch) com uma garota mais jovem (Camilla Belle). A menina se vê diante de um dilema entre contar para sua mãe a verdade ou se manter fiel ao seu pai herói.

Poderíamos ser levados a crer que não existe nada de novo neste filme, baseados nesta pequena sinopse. Felizmente, Heitor Dhalia cria um painel com personagens interessantes e densos, e nos convida para observar aquela família em ruínas. A experiência é rica para o espectador, que vai conhecendo, aos poucos, um a um daqueles perdidos seres humanos. Em uma escolha acertada e realista, não existem vilões em À Deriva. Vemos apenas pessoas que foram pegas pela maré, arrastadas pela corrente, e que agora, basicamente, tentam como podem se manter à tona.

O casal vivido de forma visceral por Débora Bloch e Vincent Cassel é um exemplo perfeito disso. Ele, artista incompreendido em casa, buscando carinho nos braços de outra. Ela, mãe de três filhos, frustrada, afoga suas angústias na bebida. Ambos escondem um segredo que nos é revelado apenas no final e que acaba ressignificando muitas das situações que vimos durante a trama. A surpresa não é reservada apenas para nós, espectadores, mas para nossa representante na telona, Felipa, que desconhece toda a história envolvendo os pais, acreditando saber tudo o que há para saber. Não é a toa que somos levados a crer que também conhecemos todos os motivos da infelicidade daquele casal.

Devo confessar que, no início, fiquei com sérias restrições à interpretação de Vincent Cassel. O ator aparentava sérias dificuldades em atuar de forma convincente falando português. Com o decorrer da narrativa, esse estranhamento (talvez de minha parte apenas) se dissipa e o ator francês entrega uma robusta atuação. E quem está acostumado a ver Débora Bloch no piloto automático na televisão terá uma bela surpresa em reparar que a atriz dá um banho em seu parceiro de tela.

Vale destacar a jovem atriz que interpreta Felipa, achada na internet pelo diretor, e que dá conta do recado. O personagem ajuda, é claro, tendo sido muito bem construída pelo roteiro. Típica adolescente, não sabe direito o que quer ou até onde pode chegar em suas relações com os garotos, possuindo uma relação muito próxima ao pai, com claros traços freudianos. A garota fica irritada por saber que seu pai trai a mãe, mas não hesita em tentar se vestir como a amante em questão, que usa turbantes excêntricos e uma maneira única de se vestir. Faz pensar se o aborrecimento da menina se deve a sua mãe traída ou à atenção de seu pai dispensada para uma outra garota que não ela.

Com uma bela fotografia e uma caprichada direção de arte, recriando muito bem os anos 80, À Deriva é um amadurecimento do cineasta Heitor Dhalia, que já mostrou talento em trabalhos anteriores e confirma a boa mão para personagens conturbados neste novo longa-metragem.

À Deriva
Dir.: Heitor Dhalia
Com Vincent Cassel, Débora Bloch, Camilla Belle, Laura Neiva
Cotação Paradoxo: Vale 92% do ingresso

9:57 PM

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