As novidades e as raridades do cinema. Estréias, clássicos e outros filmes menos cotados. Paradoxo: 5 anos. Paradoxalmente Pensando o Cinema.
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Terça-feira, Setembro 29, 2009
Doidos demais
É com clima de festa que inicia Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas. Festa merecida, já que o seriado exibido pela Rede Globo entre 2001 e 2003 deixou saudades nas noites de sexta-feira. Portanto, nada mais normal que um retorno triunfante no cinema – ao som de Livin’ La Vida Loca em uma versão nada ortodoxa. Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) surgem em um palco iluminado, dando um show de (des)afinação e falta de carisma. Não demora muito para que percebamos que a aura de festa não passa de uma tentativa do casal de reascender a chama do seu noivado, que dura surpreendentes 13 anos. A tentativa, no entanto, não surte muito efeito dentro de uma decadente casa de karaokê.
Vani chega à conclusão de que depois de tanto tempo juntos, a freqüência do sexo acaba diminuindo consideravelmente. Com isso, ela resolve propor a Rui o seu tão desejado ménage à trois, pensando que, desta forma, conseguiria reavivar o interesse de seu parceiro. Com essa idéia em mente, os dois saem às ruas do Rio de Janeiro para encontrar a terceira pessoa ideal. E nisso, todas as confusões da “noite mais maluca de todas” do título acontecem.
Como um apreciador do seriado, estava com expectativas em relação ao filme. Gostei do primeiro longa-metragem, lançado em 2003, mesmo que este diferisse bastante da série televisa. Até considero este afastamento um ponto positivo daquele filme, já que não faria sentido assistir a um episódio maior do seriado na telona, visto que a série recém havia saído do ar. Dito isso, perceber que esta sequência é muito mais próxima do seriado não deixa de ser bacana, pois já houve tempo suficiente para sentirmos saudades das desventuras de Rui e Vani.
Infelizmente, o retorno do casal veio vitaminado com um elenco de apoio terrivelmente fraco. Nomes como Danielle Winits, Daniele Suzuki e Alinne Moraes pouco acrescentam, enquanto que Drica Moraes, a única com talento para comédia, ficou relegada a um personagem mínimo. O destaque coadjuvante vai, certamente, para Cláudia Raia, que relembra seus bons momentos de TV Pirata com uma participação divertida, mesmo que rápida.
Claro que quem vai ao cinema esperando ver o casal de Os Normais não vai se decepcionar. Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres estão entrosados como sempre, sendo a grande razão do sucesso do seriado e dos filmes no cinema. O roteiro de Alexandre Machado e Fernanda Young também é culpado do sucesso, mesmo que não esteja tão inspirado como no passado. O que me parece é que faltou revisão no texto. Mesmo que a idéia de uma continuação esteja nos planos há muito tempo, o roteiro me deu a impressão de feito às pressas. Algumas situações poderiam ser limadas sem prejuízo algum às risadas ou à “trama”. A sequência do hospital é um bom exemplo. Mas como o filme já é bastante curto do jeito que é, cortar cenas poderia transformá-lo em um média-metragem (ou em um capítulo padrão do seriado).
José Alvarenga Jr., diretor do primeiro Os Normais e do sucesso de 2009 Divã, tem se mostrado um diretor hábil em comédias, conseguindo manter um bom ritmo em seus trabalhos. Como se sabe, é muito mais difícil fazer o espectador rir do que chorar. É tudo uma questão de timing, edição e um bom texto. Felizmente, o timing cômico do longa-metragem está impecável. Só o texto, como já disse, deixa um pouco a desejar.
Mesmo demorando a engrenar, Os Normais 2 é engraçado o suficiente para relembrar os bons tempos do seriado global. E é corajoso o bastante para acrescentar uma interessante mudança no status quo dos personagens, que pode render boas piadas em futuras sequências ou até mesmo em uma nova temporada da série na televisão. Espero que os produtores lembrem-se dos bons nomes que passaram por Os Normais, como Selton Mello e Graziella Moretto, e não esqueçam de convidá-los para estas novas empreitadas.
Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas
Dir.: José Alvarenga Jr.
Com Luiz Fernando Guimarães, Fernanda Torres, Danielle Winits, Daniele Suzuki, Claudia Raia, Drica Moraes, Alinne Moraes, Daniel Dantas
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso
4:01 PM
Terça-feira, Setembro 22, 2009
Verdade Espartana
Se existe algum gênero cinematográfico bastante previsível, este gênero é a comédia romântica. Antes mesmo de entrarmos no cinema é possível adivinhar quais serão os destinos dos personagens principais e, não raro, até dos coadjuvantes. A Verdade Nua e Crua, novo representante deste combalido gênero, não escapa de nenhum dos clichês, mas acaba sendo um programa agradável para conferir ao lado da sua cara-metade. Funciona bem como comédia e tem seus momentos românticos inevitáveis.
Na trama, a produtora Abby Richter (Katherine Heigl) está tendo problemas com a audiência de seu programa matinal na pequena emissora que trabalha. Tudo muda quando seu chefe, Stuart (Nick Searcy), contrata o desbocado e carismático apresentador de tevê Mike Chadway (Gerard Butler), que comanda um quadro chamado The Ugly Truth, no qual conta algumas verdades sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Ultrajada de início pelo compartamento de seu companheiro de trabalho, Abby acaba aceitando sua presença na emissora e recebe dicas de Mike para conquistar o seu príncipe encantado, Colin (Eric Winter), o vizinho médico e boa pinta. Não é necessário ser um cinéfilo inveterado para desconfiar que a aproximação entre Abby e Mike pode acabar em muito mais do que amizade.
Clichê parece ser a palavra de ordem das roteiristas Nicole Eastman, Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith, responsáveis pelo screenplay de A Verdade Nua e Crua. As situações apresentadas no filme são bastante recorrentes no cinema, como a velha cena na qual um personagem recita o que o outro deve falar para seu objeto de desejo - mas, no fim das contas, o plano acaba dando errado, gerando muita confusão (#sessaodatarde). Ou a manjada cena em que alguém bate à porta, mas não é bem esse alguém que a personagem (e a audiência menos ligada) espera.
Além disso, é interessante reparar que o roteiro foi escrito por três mulheres. Portanto, o espectador que sair da sala de cinema comentando a "verdade sobre os homens" que Mike Chadway tão enfaticamente destaca no filme, tão somente estará destacando a visão feminina do que pensa ser a mente masculina. Não digo aqui que as três roteirisitas erraram muito em suas suposições. Algumas feias verdades até são apresentadas. Mas não é porque Gerard Butler as profere que deverão ser levadas ao pé da letra.
O ator, aliás, é o grande trunfo de A Verdade Nua e Crua. Defendendo muito bem seu papel, Butler se revela com um bom timing cômico, e transforma o filme a partir de sua primeira aparição. Sua presença na trama transforma a personagem de Katherine Heigl, que até então era apenas uma "control freak" sem graça. A interação entre os dois gera as faíscas necessárias para o romance decolar, com uma excelente química, e também é esta dobradinha que gera as grandes risadas do longa-metragem - que não são poucas, é bom que se diga.
Ou seja, A Verdade Nua e Crua possui problemas, mas acaba gerando os risos que promete. A receita disso seja, talvez, o aproach diferente em relação a outras comédias românticas, deixando a sacarose um pouco de lado e apelando para um lado mais rude. Afinal de contas, o Mike Chadway de Gerard Butler não pensa duas vezes antes de falar um palavrão ou de fazer um comentário machista sobre as situações. Enquanto isso, a Abby de Katherine Heigl é mandona e detesta alguns gestos que poderiam ser facilmente atrelados a romantismo, como ser alimentada na boca por seu namorado, por exemplo. Esta aí a força do longa-metragem dirigido por Robert Luketic, bons personagens interpretados com correção pelos seus intérpretes. Não fosse tão previsível, seria mais recomendável. Do jeito que foi concebido, acaba como um bom programa para um sábado à noite. Acompanhado, lógico.
A Verdade Nua e Crua (The Ugly Truth)
Dir.: Robert Luketic
Com Katherine Heigl, Gerard Butler, Bree Turner, Eric Winter e Nick Searcy
Cotação Paradoxo: Vale 72% do ingresso
6:25 PM
Terça-feira, Setembro 15, 2009
Pelham 1h23min
Enquanto estava com grandes expectativas com o novo trabalho de Michael Mann, Inimigos Públicos, o contrário é totalmente verdadeiro em relação ao novo filme de Tony Scott, O Seqüestro do Metrô 1 2 3. Talvez por ter ido sem nenhuma esperança de assistir a uma boa história, saí satisfeito do cinema. O longa-metragem não chega a ser uma obra prima da sétima arte, mas consegue manter a trama em alta rotação e a atenção do espectador sempre em alerta.
Em sua quarta colaboração com o diretor Tony Scott, Denzel Washington interpreta o controlador de tráfego ferroviário Walter Garber. Recém deposto de um cargo de chefia por possíveis irregularidades, Garber se vê obrigado a negociar com o perigoso Ryder (John Travolta) a soltura de passageiros de um trem que ele acabara de seqüestrar. Mesmo com a chegada da força policial, representada pelo agente Camonetti (John Turturro), Ryder se mostra irredutível em continuar negociando com Walter Garber – o que acaba transformando o controlador de tráfego em um cúmplice em potencial aos olhos da polícia.
O detalhe é que esta negociação é feita via rádio. Ou seja, John Travolta e Denzel Washington ficam, basicamente, sentados por boa parte da trama, conversando. Poderia ser bem enfadonho, não fosse a câmera enérgica de Tony Scott e a edição rápida de Chris Lebenzon (freqüente montador dos filmes de Tim Burton). Tudo é tão bem arquitetado na mesa de edição e nos movimentos de câmera que é bem possível que muitos acreditem que O Sequestro do Metrô 1 2 3 seja um filme movimentado. Não deixa de ser um paradoxo, visto que os protagonistas ficam sentados por boa parte da trama.
Estes protagonistas são defendidos de formas distintas pela dupla principal. Enquanto Denzel Washington escolhe aquela simpatia e modo de falar do everyday man, John Travolta aposta nos faniquitos e maneirismos de vilões que já interpretara no passado, como em A Última Ameaça e A Outra Face. A principal diferença entre os bad guys dos filmes anteriores é uma pequena levada desequilibrada deste último. Soma-se isso a afeição que Ryder nutre por Garber no decorrer do filme – uma possível homossexualidade? – e o personagem acaba ganhando tonalidades diferentes.
Baseado no livro de John Godey, o roteiro de Brian Helgeland acaba perdendo força em seu final, por colocar em Walter Garber características heróicas que, provavelmente, cairiam melhor para um John McClane. No livro – assim como no filme de 1974 dirigido por Joseph Sargent, adaptado da mesma novela – quem consegue coibir as investidas do antagonista é uma figura da lei. Walter Matthau, no longa-metragem citado, era um tenente. No livro, este papel é defendido por um agente especial. Enquanto isso, nesta nova versão, vemos a polícia deixar tudo nas mãos de um civil, que poderia ajudar, mas não tomar para si a responsabilidade de perseguir o bandido. Claro que por ser um filme de Tony Scott, já podemos esperar esses exageros. Mas até isso tem limites.
No frigir dos ovos, quem espera um bom thriller de ação com momentos eletrizantes e algumas boas atuações (com destaque para pequenas participações de John Turturro e James Gandolfini), pode assistir a Seqüestro do Metrô 1 2 3 sem ter medo de errar. Basta saber perdoar alguns pequenos deslizes do roteiro para conseguir se divertir.
O Seqüestro do Metrô 1 2 3 (The Taking of Pelham 1 2 3)
Dir.: Tony Scott
Com Denzel Washington, John Travolta, John Turturro, Luis Guzman e James Gandolfini
Cotação Paradoxo: Vale 78% do ingresso
7:18 PM
Segunda-feira, Setembro 14, 2009
Bye Bye Blackbird
Apesar de ter demorado bastante tempo para conferir Inimigos Públicos no cinema, estava com expectativas bem altas em relação ao longa-metragem. Michael Mann é um diretor que admiro por conseguir imprimir um tom quase verídico aos seus trabalhos - muito em função de sua câmera e da paleta de cores que escolhe para realizar seus filmes. Miami Vice e Colateral, suas fitas mais recentes, mostravam que o cineasta estava em um ótimo momento. Some-se a isso, Johnny Depp, um ator que sempre traz algo de interessante para os personagens que interpreta e estava feito um excelente programa. No entanto, não foi bem isso o que encontrei ao assistir a história do gangster John Dillinger.
Na trama, ambientada em 1933, acompanhamos as desventuras de uma das figuras mais temidas e admiradas do crime nos Estados Unidos. Dillinger era um inimigo público para as forças policiais da época, mas gozava de fama e simpatia por boa parcela da população - a qual ele fazia questão de não roubar: seu alvo eram os bancos. Depois de arquitetar sua fuga e a de seus parceiros da prisão, Dillinger se torna alvo de uma caçada pelo Bureau de investigação capitaneado por J. Edgar Hoover (Billy Crudup) - que seria logo transformado no conhecido FBI. Para comandar a perseguição, Hoover escala o agente especial Melvin Purvis (Christian Bale), que tenta de todas as formas capturar o malfadado gângster.
Pode parecer estranho, mas ao assistir Inimigos Públicos, não pude parar de pensar em Falcão Negro em Perigo. Dirigido, em 2001, por Ridley Scott, o filme pecava por se ater aos tiros e às missões dos soldados, deixando em terceiro ou quarto plano uma trama que fosse interessante de ser acompanhada. Essa crítica que fiz ao longa-metragem de Scott é a mesma que faço ao novo trabalho de Michael Mann. O roteiro de Inimigos Públicos deixa muito a desejar quanto ao aprofundamento de personagens e nem mesmo se preocupa em ter uma mera linha mestra mais elaborada do que "polícia persegue ladrão". O filme todo é um jogo de gato e rato, no qual o gato não é lá muito importante - mesmo com uma boa atuação de Bale, Purvis é uma sombra pouco eficaz - e o rato, mesmo ganhando a maior parte das batalhas, as vence mais pela sorte do que pela inteligência.
Inimigos Públicos tem suas qualidades, obviamente. Enquanto que a primeira metade do longa-metragem não empolga muito, a segunda metade consegue ser muito mais interessante. É exatamente o ponto no qual a situação fica mais difícil para o lado de John Dillinger. Até então o personagem passeava pela tela sem nenhum desafio muito expressivo. O que ele queria, tomava para si. Seja o dinheiro dos bancos que rouba, seja Billie Frechette (Marion Cotillard), moça pela qual Dillinger se apaixona logo no início da história. Quando o cerco começa a fechar, temos chance de nos preocuparmos com o protagonista. Ou, no mínimo, torcer para que ele seja preso pelos pouco brilhantes homens do FBI.
Mesmo não sendo um memorável longa-metragem de Michael Mann, é possível ressaltar alguns outros pontos bacanas. A trilha sonora funciona muito bem - mesmo com o cineasta ficando impossibilitado de nos brindar com seu conhecimento do rock atual, tudo para escapar de eventuais anacronismos - e a fotografia sempre é um destaque nos filmes do diretor. Antes de assistir ao filme, me perguntava se uma história ambientada nos anos 30 conseguiria absorver bem os maneirismos de Michael Mann, assim como sua câmera digital por vezes pixelada. No fim das contas, nesse aspecto, tudo funciona muito bem. Parece realmente que estamos vendo uma história que poderia ter sido registrada naquela época, caso este tipo de câmera já existisse. Essa era a idéia de Mann, que acabou passando bem para a telona. Pena que a história ganhou pouca atenção.
Inimigos Públicos (Public Enemies)
Dir.: Michael Mann
Com Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Billy Crudup, Channing Tatum, David Wenham, Stephen Dorff, Emilie De Ravin, Giovanni Ribisi
Cotação Paradoxo: Vale 63% do ingresso
6:33 PM
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