Não sou um grande conhecedor de documentários, mas Eduardo Coutinho é um nome que resume, pelo menos pra mim, bons exemplares deste gênero cinematográfico. Há dois anos assisti ao Edifício Master, um primor de documentário dirigido pelo cineasta, que conseguia montar uma narrativa interessantíssima através de personagens tão corriqueiros e tão extraordinários quanto os moradores daquele prédio carioca chamado Master.
Agora, Eduardo Coutinho em Jogo de Cena, com a mesma simplicidade na premissa, entrega um novo documentário tocante, que enfoca histórias de diversas mulheres, batalhadoras, sofredoras, marcantes. E com um pequeno twist. Alguns dos depoimentos são encenados por atrizes, que mergulham na psique de suas personagens reais. Tanto que fica difícil descobrir quem está encenando e quem está contando sua história real.
Claro que temos no elenco Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres, três excelentes e conhecidas atrizes, que poderiam não nos deixar dúvidas sobre a interpretação de um depoimento. No entanto, a primeira participação de Fernanda Torres, por exemplo, indica que ela estava contando uma história sua. Mas será que realmente era? O fato de ela, no decorrer de sua fala, se nomear “Nanda” não quer dizer necessariamente que aquela era uma passagem de sua vida. Ou pode. O documentário não deixa isso claro, como acontece com outras entrevistas no decorrer da narrativa.
No fim das contas, não é importante saber se o depoimento é ou não verdadeiro, já que cada uma das mulheres dá uma carga a sua história que transcende esta preocupação por parte do espectador. Da mesma forma, quando sabemos que uma atriz está interpretando, e a vemos paralelamente com a personagem real, podemos observar os cacoetes da performance e também constatar de que forma aquela atriz em especial sentiu e entendeu aquela “fala”. O melhor exemplo para isso é o caso de Andréa Beltrão, que confessou não conseguir se afastar da situação de sua personagem, chegando às lágrimas todas as vezes que dava seu texto.
Jogo de Cena não é interessante apenas pela premissa simples - porém envolvente - que Coutinho trabalha. Outras ricas simplicidades podem ser constatadas nos planos montados pelo documentarista, que alterna planos fechados com alguns mais abertos, nunca tirando o foco das mulheres que entrevista. O cenário, um palco de teatro, com as cadeiras da platéia sempre ao fundo, é uma maneira bastante minimalista de dizer que estão em cena histórias de dor, de perda, de amor, de esperança e superação. Trechos de vidas que nos prendem até o fim neste belo documentário.
Podcast Paradoxo de volta. Semana retrasada, falei sobre Antes de Partir, mais recente longa-metragem do diretor Rob Reiner e, para encerrar, rolei a música de Barry Louis Polisar, All I Want is you, trilha do filme Juno. Nesta semana, o assunto é outro e a música é ainda melhor. Aperta o play no podcast abaixo e escute!
[ATUALIZADO] Para ouvir o Podcast Paradoxo #2, clique no botão Posts, logo ao lado da flechinha do play, no player abaixo.
Há um bom tempo venho dizendo isso: o último filme que realmente me colocou medo dentro do cinema foi Os Outros, produção do espanhol Alejandro Amenábar, lançada em 2001. Com uma história de suspense asfixiante e um roteiro muito bem acabado, o filme ficou na minha memória como um ótimo exemplo de suspense/terror, muito superior a longas-metragens como O Chamado, O Grito ou Água Negra, que bebem na fonte do terror japonês. Eis que O Orfanato chega aos cinemas brasileiros e me dou conta de que, realmente, quem sabe fazer filmes assustadores são os espanhóis.
Pensando bem, assustador não seria bem a palavra certa a ser atrelada ao filme do diretor Juan Antonio Bayona, que foi apadrinhado aqui pelo mexicano Guillermo Del Toro. Sufocante seria um termo melhor, certamente. A trama não é das mais complicadas, mas sua execução é elegante e consegue trabalhar bem o conceito de amigos imaginários.
Laura (Helen Ruéda), quando criança, morava em um pequeno orfanato até ser adotada. Anos mais tarde, já adulta e com marido e filho, a mulher decide comprar a casa onde ficava o orfanato para, ali, cuidar de crianças que merecem cuidados especiais. Seu filho, Simón (Roger Príncep), é adotado e sofre de uma doença séria, mas nada sabe sobre isso. Para passar o tempo, o garoto conversa com seus amigos imaginários, que incomodam bastante sua mãe. Certo dia, Simón desaparece sem deixar vestígio algum e Laura começa uma jornada para encontrar seu filho e descobrir que mistérios envolvem aquele orfanato.
Isso é apenas a ponta do iceberg da história, que é um tanto lenta de início, mas ganha ritmo em seu segundo ato. No entanto, o fato de a narrativa no primeiro ato ser lenta não representa algo de negativo para o filme. Pelo contrário. Este primeiro ato dá a base certa para que o resto do longa-metragem consiga se sustentar, nos apresentando bem as personalidades de Laura e de Simón, duas belíssimas atuações, diga-se.
Helen Ruéda faz com que nos esqueçamos de que estamos vendo uma obra de ficção. Sua atuação como Laura, uma mãe que perde seu filho e, por conseqüência, seu motivo de viver, é emocionante e ganha força a cada segundo da história. Já Roger Príncep ganha pouco tempo de tela, mas consegue mostrar que é uma criança de talento. Outro destaque do elenco fica para Geraldine Chaplin, que interpreta a mediúnica Aurora, em um trabalho de arrepiar os cabelos. Fechando o bom elenco, o sempre bondoso Seu Barriga do Chaves, Edgar Vivar, tem um pequeno papel como parceiro da médium vivida por Chaplin.
Como um bom filme de suspense que se preze, O Orfanato capricha na fotografia e na direção de arte, montando a iluminação da casa e a mobília como um lugar realmente misterioso. As tomadas de fora da casa, como a praia e os brinquedos do playground, são de uma beleza triste, encaixando muito bem com o resto da história.
Diferente de boa parte dos filmes de terror atualmente, O Orfanato ganha pontos por conseguir ser assustador, angustiante e, ao mesmo tempo, doce e triste. Muito longe de tentar amedrontar a platéia com sustos bobos, o diretor Juan Antonio Bayona se preocupa em criar uma atmosfera opressora, com um roteiro que não se priva em chocar o espectador até o último momento. Só vendo para entender.
A primeira notícia que li sobre este filme, Quebrando a Banca, estava relacionada ao fato de Kevin Spacey e Kate Bornsworth – a saber, Lex Luthor e Lois Lane – estarem reunidos novamente após o sucesso de bilheteria e o fracasso de crítica de Superman – O Retorno. Pelo trailer, parece que o filme é muito mais do que isso.
O jovem talento Jim Sturgess – visto recentemente em Across the Universe - interpreta Ben, um gênio matemático que consegue ganhar verdadeiras fortunas em cassinos de Las Vegas, junto com outros quatro estudantes do MIT, contando as cartas no Black Jack. O problema é que a banca sempre vence e quando o pessoal do cassino começa a se dar conta do que acontece, a situação piora pro lado do garoto e de sua turma, treinada por Kevin Spacey.
O diretor do filme, Robert Luketic, é uma incógnita, pois tem em seu currículo o engraçadinho Legalmente Loira e o intragável A Sogra.
Quebrando a Banca (21) Estréia EUA: 28 de março de 2008
Estréia Brasil: 4 de abril de 2008
Dir.: Robert Luketic
Com Jim Sturgees, Kevin Spacey, Kate Bornsworth e Laurence Fishburne
Expectativômetro: 7/10
O cineasta estreante Pete Travis teve uma idéia bastante ambiciosa em sua primeira incursão nas telonas, Ponto de Vista. Emulando o clássico Rashômon, de 1951, do japonês Akira Kurosawa, Travis conta de oito diferentes pontos de vista um trágico acontecimento fictício ocorrido em Salamanca, na Espanha. Uma organização terrorista pratica um atentado contra o presidente dos Estados Unidos Henry Ashton (William Hurt) durante uma convenção de paz sediada no país espanhol. Para entendermos exatamente o que aconteceu durante o evento, teremos de observar como personagens distintos observaram o ocorrido, incluindo a editora de um telejornal, o segurança do presidente, um turista com sua câmera em mãos, um policial misterioso e até os próprios terroristas.
A idéia, apesar de não ser nova, é bastante interessante pelo suspense que traz à trama. Não fossem as idas e voltas no tempo, a história poderia ser contada em 30 minutos, aproxidamente. Com a narrativa sempre voltando ao meio dia daquele fatídico dia, teríamos oportunidade de conhecer melhor cada um dos personagens e ter uma idéia, mesmo que rápida, de suas intenções. Infelizmente, o roteiro não dá muito tempo para que conheçamos o background de cada um dos personagens ditos principais. O que temos é um pequeno desenvolvimento do agente Thomas Barnes (Dennis Quaid), indubitavelmente o principal da trama, e do turista Howard Lewis (Forest Whitaker), que ganha um fiapo de história apenas para explicar seus atos. De resto, unidimensionalidade é a palavra chave.
Claro que seria bastante complicado para um filme de pouco menos de duas horas conseguir desenvolver todos os seus personagens. No entanto, alguns ganham tão pouco tempo de tela que chega a ser um desperdício de talento. É o caso de Sigourney Weaver, que aparece muito pouco como a jornalista Rex Brooks. O seu segmento é o primeiro a se desenrolar na história e é interessante que saibamos da tragédia por intermédio da imprensa. Uma pena que a repórter destacada para o evento seja tão fraca, em uma interpretaçâo risível de Zoe Saldana.
Por falar em risível, a atuação de Matthew Fox como o agente Kent Taylor possui dois momentos bastante distintos e, por vezes, vergonhosos. Em um primeiro momento, Fox mostra-se centrado e dá pouco espaço para novidades em seu velho retrato de bom moço, já conhecido do seriado Lost - no qual ele convence, diga-se de passagem. No entanto, no decorrer da trama, o ator se perde totalmente, entregando uma atuaçâo forçada e demasiadamente caricata.
Em matéria de caricatura, porém, Dennis Quaid é rei. Tentando salvar o dia como o agente Thomas Barnes, o roteiro dá ao seu personagem as frases mais manjadas do metier thriller-aventuresco-com-twist-no-final. Sentenças como "Eu confiei em você!" e "Como pôde?" estâo lá para não deixar dúvidas de que o roteirista Barry Levy foi preguiçoso na hora de criar os diálogos, apesar de ter tido uma certa desenvoltura ao montar um interessante mosaico de situações de ação.
Neste quesito é que Ponto de Vista se dá realmente bem: na ação. Algumas cenas, como o atentado em si e perseguição de carros no terceiro ato, são bons exemplos de cinema de ação de qualidade. Atrelado a isso com a interessante idéia de pontos de vista diferentes de uma mesma história, o filme poderia terminar sendo mais do que um passatempo esquecível. Uma pena que essa premissa dos pontos de vista diferentes seja praticamente abandonada no segmento final, quando as pontas precisam ser amarradas e o desfecho precisa ser dado. Apesar das atuações pouco memoráveis - nem William Hurt consegue se salvar - o longa-metragem de estréia de Pete Travis nos cinemas mostra que o cineasta pode ter um melhor resultado na próxima vez. Só é necessário colocar mais conteúdo em uma forma que é certamente bem orquestrada.
Mais uma novidade aqui no Paradoxo. Depois da seção Preview, com vídeos do You Tube, chegou a vez do áudio dos superhypados podcasts. Todas as sextas-feiras, um novo Paradoxo sonoro, com críticas e comentários sobre os mais recentes filmes e seriados assistidos pela equipe do blog - que sou apenas eu, na verdade. Ah, e importante dizer: não se preocupe pois o podcast é curtinho (11 minutos) e ainda rola música no final. Logo abaixo do podcast tem um link para quem quiser assiná-lo e comentários são sempre bem-vindos.
[ATUALIZADO] Para ouvir o Podcast Paradoxo #1, clique no botão Posts, logo ao lado da flechinha do play, no player abaixo.
Eu acredito em M. Night Shyamalan. Mesmo depois de ter lançado um fraco exemplar de... conto de fadas (?) chamado A Dama na Água, acho que o cineasta pode voltar aos bons tempos de filmes como O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Sinais.
Aliás, tudo indica que este Fim dos Tempos terá um clima similar ao filme de ETs de Shyamalan. Pelo menos, é o que parece pelo trailer, que mostra a população sem saber o que diabos está acontecendo com o mundo. Darei meu voto de confiança para o cineasta indiano, que ainda tem crédito por seus excelentes primeiros filmes.
Fim dos Tempos (The Happening)
Estréia EUA: 13 de junho de 2008
Estréia Brasil: 13 de junho de 2008
Dir.: M. Night Shyamalan
Com Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Alan Ruck
Expectativômetro: 8/10
Depois de alguns filmes que pouco lembravam a capacidade do cineasta Rob Reiner, como Alex & Emma e Dizem por Aí, finalmente o diretor que assinou ótimos longas-metragens como Spinal Tap, Conta Comigo e Harry e Sally conseguiu voltar à velha forma. Convenhamos que com uma dupla de protagonistas do quilate de Jack Nicholson e Morgan Freeman encabeçando este Antes de Partir a tarefa ficou bem mais fácil.
Carter Chambers (Freeman) é um mecânico sabe-tudo que descobre estar com um câncer terminal. No hospital, Carter conhece o bilionário Edward Cole (Nicholson), que também sofre do mesmo mal e tem apenas poucos meses de vida. Os dois não vão com a cara um do outro de início, mas, com o passar do tempo, vêem que têm algo em comum: a vontade de aproveitar seus últimos momentos de forma inesquecível. Para tanto, uma lista é feita com todas as últimas vontades da dupla, que é seguida à risca no decorrer da trama.
Considero que este Antes de Partir é o mais bem acabado filme de Rob Reiner em pelo menos 10 anos. Isso porque o cineasta finalmente consegue ser bem sucedido no seu plano original, fazendo uma comédia dramática que funciona tanto nos momentos sérios quanto nos engraçados. Culpa disso é do próprio diretor, que soube dirigir muito bem seu elenco e, claro, da própria dupla principal, que sabe como ninguém o seu ofício.
Jack Nicholson pode ser acusado de interpretar sempre o mesmo papel - o de si mesmo – e, ainda assim, sempre terá uma legião de fãs para acompanhar seus filmes. Já faço parte desta legião há alguns anos, e posso dizer que não há problema nenhum em assisti-lo fazendo o que sabe de melhor. No entanto, tenho notado que cada vez mais, Nicholson tem pegado papéis que dialogam com sua idade mais avançada. Foi assim nos recentes Alguém tem que Ceder, de 2003, e Confissões de Schimidt, de 2002, nos quais o ator entra em contato com sua condição setuagenária. Já Morgan Freeman, apesar de ser um grande ator, ainda tem problemas na escolha de papéis, vide algumas passagens horríveis em Apanhador de Sonhos, de 2003, e Cão de Briga, em 2005. Aqui, porém, Freeman está extremamente à vontade como o mecânico que tudo sabe e é fera no Jeopardy, popular programa de televisão norte-americano de perguntas e respostas. Os diálogos travados entre os dois atores são a mola propulsora do filme que tem, em seu roteiro, espaço para belas conjecturas sobre o final da vida e ainda piadas que envolvem vômito e óculos hospitalares bizarros.
Rob Reiner se fia tanto na presença de Nicholson e Freeman em seu elenco que praticamente não precisa de outros coadjuvantes em Antes de Partir. Os poucos que ganham algum espaço são Sean Hayes - conhecido pelo seriado Will & Grace, fazendo bem o papel do assistente que sempre tem uma resposta na ponta da língua para seu patrão – e Beverly Todd, que vive a esposa de Carter, Virginia, que não compreende a necessidade do marido em passar seus últimos dias com o seu recém conhecido amigo.
Antes de Partir pode não ser a mais inovadora das comédias dramáticas, mas acaba por entregar um pacote bem feito, com boas atuações, diálogos interessantes e uma volta ao mundo digna dos escritos de H.G. Wells. Comparando com os trabalhos que Rob Reiner vinha fazendo atualmente, é um grande salto na filmografia recente do cineasta.
Preview – Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
Não sou o maior fã vivo de Indiana Jones, mas gosto muito da trilogia comandada por Steven Spielberg nos anos 80. Curto, principalmente, Indiana Jones e a Última Cruzada, que trazia Harrison Ford em discussões engraçadíssimas com seu pai, vivido pelo eterno James Bond, Sean Connery. Além, é claro, de todo aquele clima de aventura tão bem encenado por Spielberg e sua trupe.
Dito isso, estou ansioso para ver o que o diretor, George Lucas e o roteirista David Koepp (de Jurassic Park) prepararam para o agora sessentão herói de chapéu e chicote. Pelo trailer, a magia parece estar intacta. Indy tem suas piadas de sempre e as explosões parecem estar longe dos CGI que Lucas adora utilizar em suas produções. São quase 20 anos de espera por mais uma aventura de Indiana Jones. Espero que os responsáveis não desapontem seus fãs. O fato de Connery não participar do filme já foi um let down pra mim, que pode ser compensado, de certa forma, pela atuação da sempre competente Cate Blanchett como a vilã.
Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal
(Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull)
Estréia EUA: 22 de maio de 2008
Estréia Brasil: 22 de maio de 2008
Dir.: Steven Spielberg
Com Harrison Ford, Shia LaBeouf, Cate Blanchett, Karen Allen, John Hurt, Jim Broadbent e Ray Winstone
Expectativômetro: 10/10
Aaron Sorkin é uma figura que deveria ser mais conhecida. Ele é o criador do excelente seriado The West Wing, que mostrava os bastidores da Casa Branca durante o mandato do fictício presidente democrata Jed Bartlet (Martin Sheen), e também é responsável pelo prematuramente cancelado – e ótimo – seriado Studio 60 on the Sunset Strip, que tinha no elenco principal a dupla Matthew Perry e Bradley Whitford como os cabeças de um programa humorístico nos moldes do popular Saturday Night Live. Mesmo com um currículo bastante interessante, que ainda inclui os roteiros de filmes como Questão de Honra e Meu Querido Presidente, muitos ainda usam a expressão “quem?” logo após o nome de Sorkin ser mencionado.
Esse incômodo desconhecimento poderia ficar no passado após o roteiro desta comédia política chamada Jogos do Poder. Poderia, caso o estúdio não tivesse atrapalhado neste caso. O que seria uma bela crítica a política dos Estados Unidos de sempre criarem monstros que eventualmente atacam de volta – neste caso, o Talibã afegão - acabou sendo um filme sem esta verve mais ácida. No entanto, os diálogos rápidos e as ótimas atuações de Philip Seymour Hoffman e Tom Hanks, exatamente nesta ordem, compensam o trabalho assinado pelo diretor Mike Nichols.
Jogos do Poder se passa nos anos 80, em plena Guerra Fria, e conta a história real do senador texano Charlie Wilson (Hanks). Após saber da invasão russa ao Afeganistão e persuadido a agir depois de uma conversa íntima com a socialite Joanne Herring (Julia Roberts), o político tenta derrotar o maior inimigo dos Estados Unidos armando até os dentes a população afegã. Em meio a um escândalo político que poderia encerrar sua carreira, Wilson consegue um resultado pouco esperado para um senador de pouca relevância política como ele.
Como fã de Tom Hanks, devo admitir que o ator esteve um degrau abaixo de Hoffman, que deu ao filme um novo ritmo assim que surgiu na tela. “Culpa” de Aaron Sorkin, que criou as melhores falas para o agente da CIA Gust Avrakotos, interpretado de forma irônica por Philip Seymour Hoffman. O fato é que o personagem de Charlie Wilson é muito interessante em sua concepção original: um homem viciado em cocaína, uísque e belas mulheres que é praticamente o responsável pela derrocada da União Soviética. Mas o filme acaba pasteurizando a imagem do senador, não lhe dando uma dimensão real. O mesmo acontece com a perua interpretada por Julia Roberts, que tem pouca relevância na trama. É provável que o fato de Wilson e Herring ainda estarem vivos tenha afetado o resultado final, já que não seria bom para nenhum dos dois ser responsabilizado de alguma forma pela criação do Talibã.
Mas a história real está mais viva que nunca e não é um filme de Hollywood que a mudará. Pesquisando pela internet, descobri que a cena final do roteiro de Jogos do Poder mostrava Charlie Wilson observando o pentágono em chamas durante os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, sentindo-se angustiado pela trajetória dos acontecimentos. Mesmo que Mike Nichols tenha tentado colocar algum tipo de consternação na figura de Charlie Wilson em sua cena final, esta tentativa fica muito opaca quando comparada ao que realmente deveria ter sido o cerne do longa-metragem.
De qualquer forma, Jogos do Poder é um filme que prende a atenção nos seus rápidos 97 minutos de duração, sendo recomendável pelas boas batalhas travadas entre Hanks e Hoffman através do roteiro de Aaron Sorkin. Com os talentos envolvidos, no entanto, poderia ser muito mais que isso.