As novidades e as raridades do cinema. Estréias, clássicos e outros filmes menos cotados. Paradoxo: 4 anos. Sem frases de efeito.


























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Rodrigo de Oliveira
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paradoxo
Terça-feira, Janeiro 31, 2006

Maratona Oscar 2006

Mais um Oscar se aproxima. E mais uma Maratona Oscar também. Como todos os anos, tentarei assistir ao maior número de indicados ao prêmio da Academia e, assim como em 2004 e 2005, postarei aqui no Paradoxo os meus achismos durante este mês que antecede a festa. Mas vamos aos indicados, que é o que interessa.

O Segredo de Brokeback Mountain, como era de se esperar, é o grande filme do ano, recebendo oito indicações. Dentre elas, Melhor Filme, Diretor (Ang Lee), Ator (Heath Ledger), Ator Coadjuvante (Jake Gyllenhall), Atriz Coadjuvante (Michelle Williams) e Roteiro Adaptado (Larry McMurtry e Diana Ossana). Ainda não pude assistir a esse polêmico filme sobre os cowboys homossexuais, mas é muito provável que saia da premiação com uns três ou quatro Oscar em baixo do braço. O prêmio de Melhor Filme é uma aposta fácil, mesmo com o teor pouco usual da trama.

Boa Noite e Boa Sorte é mais um concorrente ao prêmio máximo da cerimônia e deu a George Clooney sua primeira indicação como Melhor Diretor e Roteiro Original (o qual assina junto com o ator Grant Heslov). Além dessas três categorias, a produção concorre com Melhor Ator (Jason Strathrain), Fotografia (Robert Elswit) e Direção de Arte. Por ter um visual diferenciado, quase azul-e-branco, diria que Fotografia seria um prêmio merecido para o longa.

Capote, cinebiografia do jornalista Truman Capote, sai na dianteira para o prêmio de Melhor Ator para Philip Seymour Hoffman. Depois de ter levado o Globo de Ouro e o prêmio do Screen Actor's Guild, é muito provável que veremos Hoffman subir ao palco do Kodak Theather no dia 5 de março. Além desta categoria, Capote concorre como Melhor Filme, Diretor (primeira indicação para Bennett Miller), Atriz Coadjutante (Catherine Keener) e Roteiro Adaptado (primeiro script do ator Dan Futterman).

Crash - No Limite provavelmente é a produção mais outsider das cinco indicadas a Melhor Filme. O diretor Paul Haggis, mais conhecido pelos seus trabalhos na televisão, também consegue sua primeira indicação ao prêmio de Melhor Diretor. Outras indicações para Crash são Melhor Ator Coadjuvante (Matt Dillon), Roteiro Original (Haggis e Robert Moresco), Edição (Hughes Winborne) e Canção Original (Kathleen York por "In the Deep").

O último dos cinco indicados a melhor filme é o polêmico longa-metragem de Steven Spielberg, Munique. O cineasta também aparece na lista de Melhores Diretores. Curioso notar que diferente de outros anos, todos os responsáveis pelos indicados a Melhor Filme aparecem na categoria Melhor Diretor - o que para mim seria óbvio, já que é difícil dissociar uma coisa da outra. Munique concorre também como Roteiro Adaptado (Tony Kushner e Eric Roth), Trilha Sonora (John Williams) e Edição (Michael Kahn).

O "nosso" Jardineiro Fiel aparece bem, com quatro indicações. Deve vencer na categoria Atriz Coadjuvante (Rachel Weisz). Como Fernando Meirelles mesmo havia ressaltado em uma entrevista para a Folha de São Paulo, achava difícil receber uma indicação para direção já que não havia sido lembrado pelo prêmio do sindicato. Os brasileiros poderão torcer ainda nas categorias Edição (Claire Simpson), Roteiro Adaptado (Jeffrey Cane) e Trilha Sonora (Alberto Iglesias). As chances são poucas, mas gostaria muito de ver a edição do filme de Meirelles ser premiada.

2 Filhos de Francisco, concorrente brasileiro à concorrente do Oscar, não foi lembrado, o que já era de se imaginar. Dois filmes nessa categoria despontam como favoritos: Paradise Now, da Palestina, por ter ganho o Globo de Ouro, e Tsotsi, da África do Sul, por ser notadamente um dos mais elogiados pela crítica especializada.

Como não assisti a maioria dos filmes, fica difícil fazer previsões agora. Dos que já conferi, acho que os prêmios mais fáceis são Melhor Som, Efeitos Especiais e Edição de Som para King Kong e Atriz Coadjuvante para Rachel Weiz, por O Jardineiro Fiel. Mas isso tudo pode mudar até o dia da premiação, à medida que eu for assistindo aos demais filmes. Então, está dada largada à Maratona. E que vença o melhor (contanto que sejam os que eu apostei).

7:03 PM

Segunda-feira, Janeiro 30, 2006

Olaf

Brad Silberling é um diretor que deveria trabalhar mais. Vindo da televisão, onde foi responsável por diversas séries, o cineasta lançou até agora apenas quatro filmes no cinema. Sua estréia foi em 1995, com Gasparzinho, o simpático longa-metragem do fantasminha camarada estrelado por Christina Ricci. O filme ganhou notoriedade por ser o primeiro na história do cinema a ter um protagonista totalmente criado por computadores. Mas a revelação veio em 1998, quando Silberling ousou revisitar um clássico de Win Wenders, Asas do Desejo, no ótimo Cidade dos Anjos, com Nicolas Cage e Meg Ryan. Inexplicavelmente, em vez de usar seu sucesso recém alcançado, o cineasta demorou quatro anos para voltar a direção no cinema, nos apresentando Vida que Segue, drama com Dustin Hoffman, Susan Sarandon e um (mais) novato (ainda) Jake Gyllenhall.

Depois dessa pequena biografia, posso começar a tecer comentários sobre seu mais recente longa-metragem: Desventuras em Série. Um veículo para as estripulias de um multifacetado Jim Carrey, e mais uma adaptação de um livro infanto-juvenil. Se este filme é recomendável por algum motivo, certamente é pelas decisões de seu diretor, que coloca um visual de cair o queixo para seu trabalho. Se não fosse isso, os maus bocados que os órfãos Baudelaire passam nas mãos de Conde Olaf não seriam tão interessantes quanto acabam sendo. Isso muito por culpa do roteiro de Robert Gordon, que não consegue segurar pouco mais de 90 minutos de trama sem provocar alguns bocejos no espectador.

www.adorocinema.comA história até começa bem. Somos apresentados a três crianças bastante especiais: Violet (Emily Browning), uma garota inteligente e criativa; Klaus (Liam Aiken), um intelectual centrado e Sunny (kara e Shelby Hoffman), uma... bem... mordedora de primeira. Quando a casa dos Baudelaire misteriosamente é tomada pelas chamas, os pais das crianças não conseguem escapar. Então, quem fica com a guarda dos pequenos é o ator picareta Conde Olaf (Carrey), que não quer saber de mais nada além de botar a mão na fortuna da família. O filme então vira praticamente um desenho de Frajola e Piu-Piu, onde o gato tenta de todas as formas aniquilar o passarinho - e sempre acaba se dando mal no final das contas.

A caracterização dos personagens de Carrey é de tirar o chapéu, com um trabalho de maquiagem merecidamente premiado pela Academia. Para completar o visual acachapante do longa-metragem, o desenho de produção merece todos os elogios por criar cenários belíssimos, que parecem ter sido tirados diretamente da literatura. A fotografia também é um ponto alto, dando um tom sombrio bastante característico.

Obviamente, toda a maquiagem colocada em Jim Carrey não funcionaria se o ator não fosse um verdadeiro camaleão. Cada vez que Conde Olaf tenta um novo esquema, o ator transforma-se em outra pessoa, com trejeitos, vozes e postura completamente diferentes. Méritos novamente para Brad Silberling, que percebeu que em um filme com Jim Carrey, muito mais importante do que tentar controlá-lo é tentar canalizar todas suas qualidades para um objetivo em comum. Meryl Streep ganha uma personagem bastante interessante, incrivelmente cautelosa, mas não tem tempo em tela suficiente para ganhar o telespectador. Enquanto isso, as crianças saem-se muito bem em seus papéis, com destaque para a gatinha Emily Browning.

Se o roteiro conseguisse ir um pouco além do Frajola X Piu Piu, certamente teria sido bem mais interessante para o público acompanhar essa série de eventos inoportunos. Mas ainda assim, acredito que o longa-metragem ainda valha uma espiada pelos aspectos destacados acima. E o DVD é um destaque por si só. Os menus animados são um espetáculo, usando muito bem a ótima trilha composta por Thomas Newman. Com os extras, é possível descobrir um pouco mais de como foi a criação de Conde Olaf. Para fãs de Jim Carrey, um prato cheio.

7:48 AM

Quarta-feira, Janeiro 25, 2006

Cinco homens e um segredo

Não é muito difícil fazer comparações entre Uma Saída de Mestre e Onze Homens e um Segredo. Ambos são remakes de filmes dos anos 60, têm roubos super planejados e orquestrados como característica principal e, por último, mas não menos importante, são extremamente divertidos. Isso sem contar que o papel de Matt Damon no filme de Soderbergh havia sido escrito para Mark Wahlberg. Ou seja, o grau de parentesco entre as duas produções é bem grande. No caso, Uma Saída de Mestre seria o primo pobre. Com menos estrelas e menos prestígio, o longa-metragem de F. Gary Gray, porém, não decepciona quem procura um animado e despretencioso passatempo em frente à tevê.

www.adorocinema.comWahlberg lidera a gangue de ladrões mais gente fina do cinema. O trabalho que precisam realizar em Veneza é planejado de tal forma para que nenhum tiro precisasse ser disparado por eles. O alvo é um cofre cheio de ouro que, dividido entre os seis membros da gangue, deixaria cada um milionário. Acontece que um deles, Steve (Edward Norton), resolve rebelar-se e ficar com o ouro todo para ele. Para isso, ele mata John Bridger (Donald Sutherland), um veterano da arte do roubo, e tenta liquidar todos os seus outros companheiros. Um ano depois, Charlie (Wahlberg) e os outros encontram seu inimigo e resolvem limpá-lo, com a ajuda da filha de seu amigo morto, Stella Bridger (Charlize Theron).

Os personagens de Uma Saída de Mestre seguem a risca todo o bom filme de assaltos. Temos o especialista em informática (Seth Green, inspirado), o motorista convencido (Jason Statham), o perito em bombas (Mos Def), o veterano com seu último trabalho (Donald Sutherland) e o líder bonzinho e boa pinta (Wahlberg). Todos desempenham bem seus papéis, com espaço para crescer e desenvolver seus personagens. Destaque para a história de Lyle (Green), que vive obcecado por ter sido ele o verdadeiro inventor do Napster. Os nomes também são um achado como Handsome Rob e Left Ear. As cenas das origens de cada um são muito bacanas e dão uma idéia do clima bem humorado, que é a tônica do filme.

Edward Norton interpreta aqui um vilão básico, mas correto. O ator nunca escondeu que fez o papel por obrigações contratuais e não por escolha própria. Apesar disso, sua performance não é afetada. Charlize Theron está lindíssima como sempre e, de acordo com os extras do DVD, se preparou ao máximo para gravar suas próprias cenas dentro dos mini coopers, astros da primeira versão, de 1969, com Michael Caine, e que retornam no remake de 2003.

As cenas das perseguições são bem arranjadas e divertidas, principalmente as que envolvem os minis no terceiro ato, dentro de um túnel de trem. Ver lanchas correndo em alta velocidade nos canais de Veneza também foi uma bela sacada do diretor Gary Gray, que tem no currículo produções bacanas como Be Cool e A Negociação. O próximo filme do cineasta é justamente a continuação deste Uma Saída de Mestre. O próximo alvo de Charlie, Napster e companhia será o Brasil. The Brazilian Job é o título da próxima aventura, que contará com todo o elenco original - exceto Norton - e deve sair em 2007. Neste mesmo ano devemos ver Danny Ocean e seus Treze Homens de volta às telonas, em mais uma seqüência. Um grande viva aos filmes de assalto.

8:00 AM

Segunda-feira, Janeiro 23, 2006

Neve em janeiro

Agradar adultos e crianças. Uma tarefa bastante difícil quando falamos em várias áreas de entretenimento, incluindo o cinema. Existe quem consegue com maestria conquistar gregos e troianos, como é o caso da Pixar, que desde que começou a produzir animações junto à Disney tem mostrado qualidade ímpar a cada novo filme. Nanny McPhee - Uma Babá Encantada não chega a ser um exemplo da excelência que a Pixar consegue com suas animações. Mas o filme escrito e estrelado com unhas e dentes (meio saltados, é verdade) por Emma Thompson não chega a ser uma experiência insuportável para os pais que levarem suas crias até o cinema. É possível até que se divirtam.

www.cinema.art.brO roteiro, como dito logo acima, foi escrito por Thompson, baseado na série de livros "Nurse Matilda", de Christianna Brand. A história é a seguinte: Cedric Brown (Colin Firth) é um viúvo pai de família que possui sete "adoráveis" filhos. As crianças são tão amigáveis que conseguem espantar de sua casa nada mais, nada menos que dezessete babás que se atreveram a aceitar a tarefa de cuidá-los. Até que a estranha babá McPhee aparece na casa da família. Dona de uma aparência repulsiva, a mulher se instala na residência avisando de antemão: "Quando vocês precisam de mim, mas não me querem, eu fico. Quando vocês me querem, mas não precisam de mim, vou embora". Com uns toques de mágica aqui e acolá, a babá acaba transformando as crianças em suas aliadas quando uma ameaça maior aparece. Cedric precisa casar novamente para continuar com a pensão que recebe da tia. E a madrasta escolhida é páreo para qualquer megera clássica das fábulas infantis.

As crianças vão gostar do longa-metragem pelo seu teor mágico, pelas piadas e efeitos especiais engraçados e por causa do elenco mirim, que dá conta do recado, com destaque para o garotinho de Simplesmente Amor, Thomas Sangster. Já os pais vão apreciar principalmente a mensagem que a trama passa aos pequenos. A babá McPhee literalmente ensina cinco lições para os filhos de Cedric, que vários dos pais presentes na sala de cinema provavelmente adorariam passar aos seus rebentos. Os adultos também entenderão melhor algumas atitudes dos personagens, como a rebeldia das crianças no início da história. Como o pai não tem tempo para elas, nada mais resta aos pequenos do que chamar a atenção de algum jeito. Uma sacada interessante do roteiro, que se espelha na realidade. Qual criança não faz bagunça para chamar a atenção dos pais?

Claro que várias comédias infantis passam lições de moral. O que diferencia Nanny McPhee das outras, além do roteiro mais inventivo, é a presença de um elenco bacana. Emma Thompson está transformada como a babá do título. Com maquiagem pesada, enchimentos e um olhar sereno, a atriz se esconde atrás de sua personagem, em uma bela performance. Colin Firth diverte como o pai da pirralhada e a veterana Angela Lansburry cria uma tia megera ótima para as crianças, já que em algumas cenas chega a lembrar uma vilã de desenhos animados, confundindo porcos com seus sobrinhos.

Ao ver os filmes que estão em cartaz atualmente é possível fazer a constatação que o que falta no cinema brasileiro é uma boa safra de filmes infantis e infanto-juvenis. Em uma temporada de produções como Xuxinha e Guto contra os Monstros do Espaço e Didi - O Caçador de Tesouros (com Renato Aragão cada vez mais longe do seu passado brilhante de trapalhão), não me resta mais nada a não ser recomendar essa produção britânica. Pelo menos não é necessário temer a dublagem. Ela está bem correta e não atrapalha em nada a diversão.

7:04 AM

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

I believe I can fly

De tempos em tempos, Jim Carrey se cansa de provar que é um bom ator em dramas e volta para suas comédias careteiras. Foi assim quando fez Eu, Eu Mesmo e Irene, logo após uma bem sucedida encarnação de Andy Kauffman em O Mundo de Andy. Do mesmo jeito, após o irregular Cine Majestic, Carrey deu a volta por cima com Todo Poderoso. E agora, após o hype de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, o ator volta a fazer o que o consagrou: comédia pura e simples. Em As Loucuras de Dick & Jane, Jim Carrey é Dick Harper, um executivo que acaba se envolvendo sem querer em uma falcatrua de sua empresa, Globodyne, e por fim, perde seu emprego e todo o seu estilo de vida. Como achar um novo trabalho fica terrivelmente difícil, ele e sua mulher resolvem roubar para tentar se manter. E é aí que as loucuras do título em português acontecem.

www.cinema.art.brAdaptado do filme Adivinhe quem veio para Roubar, de 1977, o roteiro de As Loucuras de Dick & Jane foi escrito por Judd Apatow, diretor e roteirista de O Virgem de 40 Anos. Não é à toa que é fácil achar algumas semelhanças com os dois filmes. Ambos tem uma narrativa bastante episódica, como se o roteiro se concentrasse apenas em um seguimento da história até que este termine para seguir para outra situação. É assim com as reações alérgicas de Jane com os testes de maquiagem e com a situação de Dick com a imigração, por exemplo. Outra semelhança é que a história perde força no seguimento final, tentando finalizar a trama. Se em O Virgem de 40 Anos temos um conflito no terceiro ato um tanto forçado e insustentável, em As Loucuras de Dick & Jane temos situações inverossímeis e pouca graça. Não que isso seja algo que estrage a história, já que ela sempre anda em uma linha fina entre o pastelão e uma comédia convencional.

Divertido é perceber que o filme tenta ser um Onze Homens e um Segredo no seu desfecho, com direito a planos mirabolantes e tudo. Mas o longa tem seus melhores momentos antes do casal virar uma versão cômica de Bonnie e Clyde.

É elementar que em uma comédia estrelada por Jim Carrey, o ator será o destaque. Até porque o resto do elenco não ajuda muito a tirar risos da platéia. Se em Todo Poderoso Carrey dividia a tela com Jennifer Aniston e Steve Carrell - este último quase roubando a cena - aqui Téa Leoni até não atrapalha, mas também não tem uma performance memorável como Jane. Nos tempos de pré-produção, o nome de Cameron Diaz estava atachado no filme, em uma tentativa de repetir a dobradinha vitoriosa de O Máskara. Uma pena que não rolou. Alec Baldwin surpreende com um bom timing cômico com o pouco que ganha do roteiro. Lembro que não é a primeira vez que ele encara um papel mais leve, já que atuou na comédia (de humor negro, é verdade) Os Fantasmas se Divertem, de Tim Burton. Em suma: se você é, como eu, um apreciador da fase "palhaça" de Jim Carrey, provavelmente sairá satisfeito do cinema, mesmo com algumas restrições. Caso contrário, é melhor esperar pelo próximo filme sério do ator.

7:31 PM

Segunda-feira, Janeiro 16, 2006

Santo remédio

O ano é 1942. Em plena Guerra Mundial, o alemão Johann percorre o Brasil com seu caminhãozinho, vendendo um remédio que promete curar todos os males: a Aspirina. A campanha para a venda é bastante simples. No "centro" de cada cidade em que chega, Johann arma uma tela branca, liga seu projetor e, como em um cinema de rua, exibe a propaganda do milagroso remédio para uma platéia atônita que enche os bolsos de comprimidos logo após a sessão. Numa dessas viagens, o alemão conhece Ranulpho, um sertanejo ácido com mania de grandeza, e desse encontro surge uma bela amizade entre os dois. Resumindo, esse é Cinema, Aspirinas e Urubus, filme de estréia de Marcelo Gomes.

www.adorocinema.comPode parecer bastante simples. E é mesmo. O mais incrível é o que o cineasta consegue extrair dessa simplicidade. É impossível ficar imune a simpatia dos personagens principais. E não falo de uma simpatia fácil de ser notada. Johann, vivido por Peter Ketnath, é um sujeito introspectivo e até distante em certos momentos. Já Ranulpho, interpretado por João Miguel, é rabugento e reclamão. Mas esses personagens tão diferentes, tanto em personalidade quanto em origens, conseguem acertar o passo durante a história, tornando-se amigos não só um do outro, como do espectador.

Tudo é crível graças ao roteiro escrito pelo próprio diretor, mais Paulo Caldas e Karim Ainouz, baseado nos relatos de viagem do Ranulpho da vida real. Mas não fossem as interpretações da dupla principal, Cinema, Aspirinas e Urubus não seria um programa tão agradável. O humor que é retirado de cada cena vem da ingenuidade que o personagem de João Miguel nos mostra a cada frase. Então, não é raro ver a sala de cinema rindo pra valer das situações mostradas no longa-metragem. Para um drama passado no Sertão, isso não é nada comum.

O diretor Marcelo Gomes privilegia tomadas de perto, com diversos planos-detalhe e primeiros planos, deixando o espectador bastante próximo das expressões faciais de cada ator. No mais, o resto das tomadas até podem lembrar um documentário, como a cena do restaurante, no início do filme. Cinema, Aspirinas e Urubus é uma bela história, que não deveria ser relegada apenas a circuitos culturais de cinema, onde nem todos têm oportunidade de assisti-lo. Na minha opinião, está aí o nosso representante para o Oscar 2007.

12:09 PM

Sábado, Janeiro 14, 2006

Calças curtas

A Passagem provavelmente fará você pensar por algum tempo após a sessão terminar. O novo longa-metragem do cineasta Marc Forster (do ótimo Em Busca da Terra do Nunca) possui uma história que prende o espectador até o final revelador, que nesse caso, demora um pouco a ser completamente deglutido. Pelo menos, isso aconteceu comigo. Demorei até chegar às minhas conclusões definitivas. No final da crítica, coloquei um spoiler sobre estas conclusões. Já aviso que quem não assistiu ao filme não deve ler o último parágrafo deste texto, para não correr o risco de ver as surpresas da história serem arruinadas.

www.adorocinema.comMas vamos a sinopse então. O psiquiatra Sam Foster (Ewan McGregor) tem em suas mãos um paciente bastante diferente. Henry Letham (Ryan Gosling) é um jovem estudante de arte que tem uma estranha capacidade de prever o futuro. Quando ele conta a Sam que pretende se matar na noite de seu aniversário, o psiquiatra começa a mergulhar na vida do rapaz, para tentar salvá-lo.

O visual de A Passagem é uma das grandes qualidades do longa. A fotografia, os jogos de câmera, as elipses, todos estes elementos trabalham para a narrativa. Apesar de belos, não estão lá apenas pela sua plasticidade. Méritos de Marc Forster, que mostra com esse novo trabalho uma competência que poucos cineastas jovens possuem.

As atuações também são excelentes. Cada vez mais aprecio o trabalho de Ewan McGregor, que a cada novo personagem consegue se reinventar. Se A Passagem prende o espectador, boa parcela disso é culpa da atuação deste ator escocês. Ryan Gosling (do pouco visto Cálculo Mortal) é o estranho paciente de Sam, Henry. Deprimido e dono de uma mente bastante fértil, o personagem de Gosling não é de fácil assimilação, mas a performance do ator consegue conquistar o espectador aos poucos, que fica curioso e preocupado com o seu destino. Naomi Watts, belíssima como sempre, ganha pouco o que fazer, assim como Janeane Garofalo. Já Bob Hoskins aparece pouco, mas convence muito.

Agora chegou a hora do spoiler. Então, quem não assistiu ao filme, pare de ler aqui. SPOILER - Tudo me leva a crer que o que é mostrado durante o longa-metragem se passa apenas na cabeça de Henry, que após sofrer um acidente fatal, começa a sonhar com todas as pessoas que estão em sua volta naquele momento. Todo mundo que aparece neste sonho é uma versão dele mesmo. Isso explicaria o fato da personagem de Naomi Watts ser uma artista plástica em sua fantasia, ou que Sam Foster carregasse para lá e para cá o anel de noivado que Henry daria para sua namorada. As transições de cena e as elipses fazem com que o espectador se sinta dentro de um sonho, o que comprova mais ainda essa teoria. Sempre achei que terminar uma história com a desculpa de que foi tudo uma alucinação é uma maneira muito fácil de se concluir um roteiro. Mas neste filme, essa premissa funciona muito bem. Depois de ter assistido uma vez A Passagem, foram as melhores conclusões que consegui chegar sobre ele. Aposto que mais algumas conferidas poderão deixar tudo ainda mais claro.

2:48 PM

Sexta-feira, Janeiro 13, 2006

Olhos tristes

Oliver Twist é uma história infanto-juvenil, certo? A trajetória de um órfão maltratado por cada um que passa pelo seu caminho, até que uma figura paterna apresenta-se na sua frente funciona mais como uma fábula infantil. Bastante incomum é ver Roman Polanski, um cineasta que dispensa maiores apresentações, assinar uma produção com essa temática. Os motivos para a escolha foram simples. O cineasta procurava um projeto no qual seus filhos se interessassem. A intenção foi boa. Porém, não acredito que a versão levada para as telonas atrairá um público mais jovem, exceto talvez os próprios filhos de Polanski. Digo isso dos pequenos brasileiros, no caso, que não se sentirão impelidos a assistir o novo trabalho do diretor de O Pianista e Chinatown.

www.adorocinema.comAlguns motivos para isso são bem claros. A narrativa do longa-metragem é arrastada, quesito que não atrai muito as crianças de hoje em dia, acostumadas com a velocidade (e até esquizofrenia) de video clipes e de desenhos animados. Algumas cenas mais fortes, como espancamentos e enforcamentos talvez não sejam tão apreciados também, principalmente pelos pais das crianças. Sem contar que um filme com mais de duas horas de duração dificilmente prende a atenção de um público mais jovem - a não ser que a história envolva um bruxinho, ou extra-terrestres.

Isso significa que Polanski errou com seu Oliver Twist? Talvez. Se o cineasta realmente pensou em uma produção voltada para as crianças, errou a mão completamente. E não estou dizendo aqui que um filme infantil precisa ser colorido ou bobo para que faça sucesso ou para que seja apropriado. Porém, não precisa ser tão pesado e massante para uma audiência ainda não preparada para enfrentar uma história desse modo. Cinematograficamente falando e esquecendo desse provável público alvo, Polanski consegue dar uma visão sombria para o conto de Charles Dickens, uma versão que talvez agrade aos adultos, aqueles que sentirem-se impelidos a assistir ao filme pelo menos.

A história demora um pouco para engrenar e começa a agradar quando Ben Kingsley aparece com seu Fagin. Com uma atuação caricata e teatral, o ator chama a atenção com seu personagem recém saído de uma fábula infantil farsesca. Cheio de tiques, andando encurvado e com os dentes mais podres desde Austin Powers, Fagin é o que de melhor Oliver Twist tem a oferecer ao seu espectador. Isso e a belíssima fotografia de Londres, fria e escura, retratando os becos mais sujos da cidade.

Se a atuação de Ben Kingsley é destacável, não se pode dizer o mesmo do garotinho Barney Clark. Tirando seu olhar triste e expressão carente, o ator mirim nunca se destaca, conseguindo entregar poucas falas de maneira convincente. A cena da prisão, no terceiro ato do filme, em um momento em que a emoção deveria falar mais alto, soa um pouco forçada.

Falando em forçado, a trilha sonora em vários momentos fala mais alto que o próprio filme. Para ser sincero, difícil lembrar de um momento durante as duas horas e dez minutos de duração onde não exista música incidental. Nem preciso dizer que esperava bem mais desse novo trabalho de Roman Polanski, que parece ter resolvido agradar apenas seus filhos e esqueceu do resto de sua audiência.

7:29 AM

Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

Massa

"Filme brasileiro é sempre assim: sexo, mulher pelada e palavrão". Quem nunca ouviu alguém taxar o cinema brazuca dessa forma? Antes da retomada, em 94, essa era a classificação precipitada e preconceituosa que boa parte dos espectadores faziam das produções do país. Uma generalização bastante equivocada, diga-se de passagem. Até porque os filmes estrangeiros sempre tiveram igual ou até maior número de palavrões, mas como geralmente eram suprimidos das legendas e dublagens, pouca gente percebia. Essa má vontade com o cinema nacional foi colocada de lado aos poucos, quando produções "família" começaram a pipocar no circuito brasileiro, boa parte delas com a marca Globo Filmes. Mas o chamado cinema marginal só estava esperando um bom momento para voltar. Eis que surge em 2005 um filme que deixaria um sorriso de "eu falei" nos rostos dos famigerados espectadores preconceituosos. Cidade Baixa, primeiro longa-metragem do diretor Sérgio Machado, é cheio de palavrões, sexo e nudez. E querem saber? Não fosse isso, a experiência de assisti-lo não seria tão destacável. Tudo que nos é apresentado é essencial para a história.

www.adorocinema.comO filme mostra como uma amizade forte pode ser abalada quando uma mulher se põe entre dois homens. Essa mulher é a stripper/prostituta Karinna (Alice Braga) e os amigos, Deco e Naldinho, são interpretados por Lázaro Ramos e Wagner Moura, duas figurinhas carimbadas do cinema brasileiro. A história até poderia parecer corriqueira, já que uma mulher ser alvo de disputa entre dois amigos não é nenhuma novidade. Mas o jeito forte que o cineasta Sérgio Machado escolhe para mostrar sua história não é nada comum. Os personagens de Cidade Baixa são cheios de desejo e são tomados por ele como se nada mais importasse. E não digo só desejo sexual. Tudo na vida dessas pessoas é impulsionada por vontades. Podemos notar esse jeito inconsequente de ser logo no começo do filme, quando Naldinho aposta cem reais em uma rinha de galos e acaba perdendo a aposta. Metidos em uma briga, Naldinho acaba sendo apunhalado e Deco termina por matar o agressor. E esse é apenas o começo de uma série de escolhas equivocadas que os personagens tomam no curso da história.

As atuações são acima da média. Lázaro Ramos prova que não é um dos atores mais requisitados no cinema nacional por acaso. Verdadeiro camaleão, pode fazer desde comédias adolescentes com Jorge Furtado, passando por dramas pesados como Madame Satã e este Cidade Baixa. Wagner Moura não fica atrás, também apresentando uma belíssima atuação. Não é de se estranhar, já que ambos os atores saíram da Bahia, onde o filme se passa, e conhecem muito bem aquele ambiente que é mostrado no longa. As gírias e o jeito baiano de ser está no sangue desses atores. Não deixa de ser curioso porém, imaginar o impacto que pessoas acostumadas a acompanha-los na televisão, em programas e em papéis bem comportados, poderão sentir ao vê-los neste longa-metragem bastante visceral. Fechando a tríade, Alice Braga mostra que a atenção desviada a ela em Cidade de Deus não era apenas sorte de principiante. Com uma personagem difícil, a atriz consegue até ganhar a compreensão do espectador, que entende em algum nível a situação daquela mulher dividida entre duas pessoas.

Em Hollywood é muito comum que os cineastas finalizem seu filme e, para evitar uma censura muito alta, coisa que derrubaria a produção na bilheteria, acabem cortando as cenas mais fortes, para depois em DVD lançarem uma "versão do diretor". É bom ver que ainda temos cineastas corajosos por aqui, que preferem colocar a sua versão no cinema. Quem torce o nariz para o cinema brasileiro por causa das cenas fortes e por causa de uma linguagem menos rebuscada, digamos assim, não deve assistir ao longa-metragem de Sérgio Machado. Porém, quem não se importa com isso e gosta de acompanhar uma história forte, verossímel, então Cidade Baixa é altamente recomendável.

3:57 PM

Segunda-feira, Janeiro 09, 2006

O Rei Leão

Histórias fantásticas. Seres imaginários. Terras ermas. Cenários mágicos. Isso tudo nunca me chamou a atenção. De filmes como Willow, A Lenda, História Sem Fim e outros do gênero eu sempre passei bem longe. Chego a sentir náuseas quando o comercial de Guerreiros da Virtude passa na Rede Globo, em uma incontável reprise na Sessão da Tarde. Até que um tal "O Hobbit" do senhor J.R.R. Tolkien chegou em minhas mãos e eu descobri que nem todas as histórias "fantásticas" eram de se jogar fora. Quando a trilogia de O Senhor dos Anéis foi transposta para o cinema com aquela magnitude, graças ao trabalho de Peter Jackson, comecei a rever meus conceitos. Este As Crônicas de Nárnia: O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa continua com a boa fase dos filmes de fantasia, sendo um bom passatempo familiar. Cortesia do amigo de Tolkien, C.S. Lewis, escritor da obra literária em que foi baseado o filme de Andrew Adamson (de Shrek).

Com a ajuda de um guarda-roupa mágico, quatro crianças são transportadas para a gélida Nárnia, um lugar mágico governado por uma feiticeira maligna. Uma profecia aponta que quatro humanos chegarão à Nárnia e derrubarão a bruxa de seu posto, devolvendo o verão para o povo daquelas terras. Uma guerra então é travada entre os discípulos da malvada feiticeira e os admiradores de Aslam, um sábio leão que faz as vezes de messias da história.

www.adorocinema.comTodas as matérias que eu li sobre As Crônicas de Nárnia avisavam sobre o teor cristão da história de C.S. Lewis. No entanto, sempre pensei que fosse algo velado, meio obscuro no meio da história. Mas é evidente que o autor dos livros se inspirou na história de Cristo em diversos trechos. Sem entrar em muitos detalhes, só posso dizer que em certo momento, um dos personagens oferece sua vida para proteger um pecador no melhor estilo J.C.

A atuação das quatro crianças é bastante irregular. Como as cenas foram filmadas em ordem cronológica, é perceptível a melhora das performances no decorrer da trama. Não temos aqui nenhum novo Haley Joel Osment, mas Skandar Keynes, que interpreta o problemático Edmund, é o melhor ator mirim do elenco. Quanto aos adultos, Jim Broadbent aparece pouco, mas está simpático como o professor Kirke. Liam Neesom dá personalidade ao leão Aslan, fazendo seu papel corriqueiro de mestre/tutor, mas com muita competência. E Tilda Swinton colhe os frutos de sua interpretação em Constantine como o anjo Gabriel em As Crônicas de Nárnia, vivendo a Feiticeira Branca, a grande vilã. Assim como no filme com Keanu Reeves, sua personagem tem duas faces, com a atriz conseguindo pontuar muito bem suas ambivalentes personalidades.

Infelizmente não tive a oportunidade de ler O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, portanto não posso dizer se o roteiro foi bem adaptado. Mas posso afirmar que não percebi nenhum pulo abrupto na narrativa como vemos em alguns exemplares de Harry Potter, por exemplo. Acredito que no livro, o tempo de preparo das crianças para a batalha seja maior, pois no longa-metragem temos apenas uma pequena amostragem do treinamento dos jovens reis. Tirando isso, a narrativa transcorre normalmente.

Andrew Adamson consegue provar que tem competência para dirigir live-actions, não apenas filmes de animação como os dois Shrek. Sua experiência com essas "histórias de mentirinha" podem tê-lo ajudado na tarefa de pensar as cenas que misturam atores de verdade com os efeitos especiais, que não são poucos. Acredito que podemos esperar coisas boas deste cineasta, que desde os tempos do Ogro Verde tem se mostrado bastante competente.

11:44 AM

Sábado, Janeiro 07, 2006

Quase-quase

Jake Gyllenhaal, depois de despontar em Donnie Darko, virou o homem do quase. Ele quase foi o Homem-Aranha, quando Tobey Maguire dava sinais de que não aguentaria atuar na continuação de 2002. Quase foi escalado para viver o Homem-morcego em Batman Begins, de 2005. E agora, o ator vive um quase fuzileiro em Soldado Anônimo, novo trabalho de Sam Mendes, diretor de Beleza Americana e Estrada para Perdição.

O filme é baseado na história real do soldado Anthony Swofford, que foi convocado para lutar a Guerra do Golfo, e passa a maior parte dos seus dias de combate treinando na Arábia Saudita. Ele e mais outros soldados formam o pelotão Suck, comandados pelo Sgt. Sykes (Jamie Foxx). O filme é basicamente um diário do cotidiano do pelotão, focando a maior parte da narrativa antes do combate, o que transforma Soldado Anônimo em um quase-filme de guerra.

www.adorocinema.comApesar disso, o longa-metragem começa muito bem. É interessante acompanhar o cotidiano daqueles soldados, ainda mais com um humor sempre amargo impresso nas cenas. Vemos como os militares lidam com a rotina do treinamento, com a ausência da família, dos amigos e das namoradas. E, também, como uma ambiente daquele tipo estreita os laços entre companheiros de pelotão.

Tudo estaria ótimo se o filme não desgastasse essa fórmula. O espectador até aguentaria acompanhar um diário de atividades militares se houvesse algum propósito aparente. Mas depois de uma hora de projeção, as idéias começam a se repetir, como se a história girasse em círculos. Quando o roteirista percebe isso já é tarde, e a batalha já não interessa mais.

Soldado Anônimo salva-se pelas belas atuações. Jake Gyllenhall sai-se bem, fazendo um homem perturbado pelo período que passa em treinamento, sem ser utilizado. A ânsia de entrar em combate é sentida, e algumas cenas no ato final mostram que talvez toda aquela espera ainda não o tivessem preparado para a guerra. Jamie Foxx também é destaque. O ator, como sempre, dá muita veracidade ao seu personagem. Desde que assisti Colateral e Ray, percebi que ele sempre passa muita credibilidade, pois mostra acreditar no papel que está representando. Pontas espertas de Chris Cooper (de Beleza Americana) e Dennis Haysbert (o presidente Palmer de 24 Horas) chamam a atenção. Até poderiam aparecer mais.

Quanto a Sam Mendes, Soldado Anônimo segue à risca alguns preceitos do cineasta. Temos a narração em off do personagem principal, sempre ciente dos acontecimentos futuros, uma morte sentida de um personagem importante e uma conclusão também narrada em off. Talvez os holofotes de Beleza Americana tenham feito mal ao diretor, que ficou pressionado a fazer um trabalho melhor que sua estréia cinematográfica e até agora não conseguiu. Já o seu ator principal, Jake Gyllenhall, pode finalmente sair da sombra dos quase, pois estrela um dos favoritos para o próximo Oscar, O Segredo de Brokeback Mountain. Segredo esse que todos sabem qual é. Ele e Heath Ledger vivem dois cowboys homossexuais. Mistério é quem pensou nesse título em português. Provavelmente, um Tradutor Anônimo.

10:46 AM

Sexta-feira, Janeiro 06, 2006

Tony Pires e Glória Ramos

Daniel Filho é sem dúvida um dos diretores mais competentes da televisão brasileira. No seu currículo constam grandes sucessos da teledramaturgia do país como Confissões de Adolescente, Malu Mulher, A Vida Como Ela é e novelas de sucesso como Selva de Pedra e Dancin' Days. Toda essa competência e esse know how televisivo, porém, o deixaram "viciado" nessa linguagem. Tanto que quando o diretor se aventura no cinema, o resultado sempre soa como um especial feito direto para a telinha. Filho dirigiu três filmes desde a retomada: A Partilha, A Dona da História e Se eu fosse Você. Coincidência ou não, os dois longas que têm Glória Pires como protagonista (a saber, A Partilha e o novo Se eu fosse você) possuem essa mesma particularidade, esse aspecto de programa da Rede Globo, porém mais longo.

www.columbiapictures.com.brNo filme, Tony Ramos é Cláudio, um publicitário bem humorado e falastrão, que se vê com problemas quando o seu sócio, Nestor (Thiago Lacerda), decide vender sua agência de publicidade. Enquanto isso, sua mulher, Helena (Glória Pires), começa a questionar o marido da sua importância dentro da casa, já que ele nunca pede ajuda da esposa para resolver os seus problemas. Para piorar toda a situação, inexplicavelmente durante a noite os dois trocam de corpos, naquele estilo Vice-Versa ou Tal Pai, Tal Filho - filmes clássicos da Sessão da Tarde. Agora, além de tentarem se virar dentro do corpo estranho em que estão, ambos precisam resolver os problemas um do outro, o que poderia gerar muita confusão.

Poderia, já que o filme empolga pouquíssimo. O primeiro problema que pode ser facilmente percebido é que Tony Ramos não interpreta o papel de Glória Pires, e vice-versa. No caso, o ator personifica uma mulher, mas não parece nem um pouco a mesma personagem que Glória nos mostrava no começo do filme. E o contrário é verdadeiro também. O casal esqueceu que não basta apenas copiarem alguns maneirismos um do outro para que o espectador acredite no que está acontecendo. O resto do elenco também não ajuda. Thiago Lacerda entra em cena completamente perdido. Sua primeira aparição é tão caricata e forçada que chega a incomodar. No decorrer da história, o ator acha o tom do personagem e consegue se redimir um pouco. Danielle Winits faz seu papel decorativo de sempre e Glória Menezes ganha pouco o que fazer na personagem clássica de sogra infernal.

Quando o roteiro esquece um pouco a trama dos empregos trocados e parte para as diferenças entre os sexos é o momento em que acerta e faz rir. Um exemplo disso é a festa de 50 anos de Cláudio, onde os dois se separam, participando de grupos diferentes. Enquanto a mulher no corpo do homem fica constrangida pelos papos machistas do grupo de amigos de Cláudio, o homem no corpo de mulher se diverte ao comentar às amigas de sua mulher o quanto os dois se dão bem na cama.

Para saber exatamente como classificar esse filme, seria necessário saber qual era a intenção de Daniel Filho. Se o diretor pretendia fazer cinema, não foi bem sucedido. Mas se Se eu fosse você era para ser apenas um especial global divertido, então podemos começar a conversar. Basta cortar uns 30 minutos de película e exibi-lo logo depois do Casseta e Planeta. Pronto.

7:35 AM

Quarta-feira, Janeiro 04, 2006

Master

Doze andares. 23 apartamentos por andar. Mais de 500 habitantes. Esse é o Edifício Master, situado no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. 110 minutos. Mais de dez depoimentos interessantíssimos sobre a vida comum de pessoas normais. Esse é Edifício Master, o filme, dirigido por Eduardo Coutinho e vencedor do Kikito de melhor documentário do Festival de Gramado.

A diversidade de figuras que são entrevistadas por Coutinho durante seu documentário impressiona. Não tanto por estarem juntas em um mesmo filme, mas sim, por morarem no mesmo prédio. Desde casais de velhinhos simpáticos, passando por prostitutas e por pessoas com sérios problemas de sociabilidade. Tem de tudo no Edifício Master. E o curioso é que do mais sincero e banal depoimento, ao mais esquisito e duvidoso, todos conseguem ser interessantes o suficiente para prender a atenção do espectador. A riqueza das histórias é tanta, que me pergunto o quanto de outras boas entrevistas foram deixadas na mesa de edição. Cortes inevitáveis para não exagerar no tempo de duração do filme.

Como não prestar atenção, ou até mesmo não se emocionar, com a história da senhora que foi assaltada e apenas não cometeu suicídio porque não queria morrer com contas pendentes. Ou não se surpreender com a garota que nunca encara as pessoas tete-a-tete, a não ser quando chamada a sua atenção pelo entrevistador sobre o fato. Ou não observar atentos o velhinho que alega ter cantado "My Way" com Frank Sinatra, e ainda, a plenos pulmões, tentar um dueto visceral com seu grande ídolo na sua sala de estar. Eleger os melhores depoimentos, os mais interessantes, é tarefa difícil já que todos que ali deixam sua marca no documentário tem suas particularidades.

Eduardo Coutinho faz de Edifício Master um estudo sociológico de um pequeno habitat, que é aquele prédio em Copacabana. Um tema que poderia até parecer corriqueiro, se visto de longe. Mostra que idéias simples, se bem executadas, podem resultar belíssimos trabalhos. Que nos deixam pensativos se histórias como aquelas não estão escondidas na porta ao nosso lado, no andar de baixo, naquela rua próxima...

DVD - Um recurso bacana do disquinho é a possibilidade de assistir ao documentário de forma aleatória. Já que a narrativa não possui nenhum padrão na ordem dos entrevistados, Edifício Master pode ser um filme diferente a cada nova conferida.

11:55 AM

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

Clássico é Clássico (e vice-versa)
It's a mad house! A mad house!

Escrevi em janeiro de 2004, aqui no Paradoxo: "O que faltou em Planeta dos Macacos foi alma. O filme nunca chega a empolgar. (...) Só fico devendo uma comparação com o filme original de 68, pois ainda não o assisti. Eu sei. E ainda me chamo de cinéfilo". Passados 12 meses, agora posso dizer que o filme do diretor Franklin J. Schaffner não me é mais estranho. E também posso afirmar que é dificílimo comparar a obra de Schaffner com a de Tim Burton. Os dois longa-metragens têm em comum apenas o nome e o fato de terem macacos falantes. E só.

Em O Planeta dos Macacos de 68, Charlton Heston é o astronauta George Taylor. Após a queda de sua espaçonave, ele e mais dois companheiros se vêem numa situação complicada: caíram em um planeta estranho no qual os macacos dominam os humanos, que tem um intelecto tão limitado que nem falam. Após uma investida dos macacos contra os humanos, Taylor se separa de seus amigos e é capturado pelos símios. Preso e com a garganta ferida, o astronauta tenta provar a seus capturadores que não é um homem daquele planeta. Dois macacos cientistas, Zira e Cornelius (vividos por Kim Hunters e Roddy McDowall), acreditam nele e contestam as decisões dogmáticas do Ministro de Ciência e Fé, Dr. Zaius (Maurice Evans).

www.amazon.comDiferente da nova versão de 2001, o clássico de 68 dá ênfase ao aspecto sociológico e tem pitadas críticas sobre a igreja (o ministro da fé e seus dogmas, é um exemplo) e a intolerância humana (aqui, no caso, símia). Naquele planeta, o ódio entre as duas raças é tão grande que parece não haver mais nada para os macacos fazerem a não ser caçar os humanos. É um pequeno deslize, já que seria curioso acompanhar a vivência dos símios em sua sociedade. Do modo que o filme os retrata, são apenas obcecados pela raça humana. Um dos trechos mais interessantes é o momento da inquisição em que os macacos colocam Taylor em uma espécie de tribunal. Todas as provas que Zira, Cornelius e o réu jogam na cara dos "juízes" são sempre rechaçadas com hipóteses fantasiosas, como se os macacos não quisessem acreditar numa pontecial verdade do trio. O temor é tanto que em um determinado momento, um dos símios, sem mesmo ouvir a apelação, com suas mãos nos ouvidos, mantém a objeção do promotor e encerra o caso.

O ícone do cinemão americano dos anos 50/60, Charlton Heston, é o herói dessa ficção científica e, com sua voz forte e imposição, cria um personagem interessante. Bastante cético no início da história, acaba tentando mudar a ordem das coisas naquela sociedade às avessas. O único porém de sua atuação são alguns exageros. Até agora não entendi aquela risada do primeiro ato, fora a tendência a parecer que ao invés de estrelar uma ficção científica, esteja em mais um épico bíblico.

Quanto aos macacos, as maquiagens até podem não ser tão impressionantes nos dias de hoje, mas ainda funcionam. Em 68, ainda não existia no Oscar a categoria melhor maquiagem. Mas, na época, o trabalho de John Chambers foi tão saudado que acabou recebendo um prêmio honorário.

Baseado livremente no livro de Pierre Boule, Planeta dos Macacos tem um dos finais mais memoráveis da história do cinema. O curioso é que o desfecho imaginado pelo escritor não foi usado nessa versão, sendo utilizado por Tim Burton em 2001. Muito mais ousada e simbólica, a conclusão de 1968 transforma essa ficção bacana num clássico imperdível. E com quatro seqüências que pretendo conferir.

12:16 PM

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