Se o cinema brasileiro vive um excelente momento em 2009 com suas comédias campeãs de bilheteria, estava na hora de um longa-metragem com temática mais séria chamar a atenção do público. É verdade que Jean Charles não foi um campeão no seu primeiro final de semana – ainda mais concorrendo contra os robôs multimilionários de Michael Bay. Mas a honrosa terceira colocação no seu final de semana de estreia pode apontar um interesse renovado do público brasileiro pelo seu cinema, deixando de lado apenas tramas que envolvem trocas de corpo entre casais ou mulheres imaginárias. Lógico que o fato de a trágica história de Jean Charles de Menezes ainda estar fresca na memória é um fator crucial para o sucesso da empreitada. E Selton Mello estrelar o longa-metragem ajuda bastante também, convenhamos.
Não deixa de ser triste constatar que a trajetória de Jean Charles de Menezes na Inglaterra é um caso de puro infortúnio. O clássico conto do homem errado na hora errada. O roteiro de Jean Charles, assinado por Marcelo Starobinas e pelo diretor Henrique Goldman, é bastante eficaz em preparar o terreno para aquela morte anunciada. A trama deixa claro que são duas forças conflitantes que empurram o personagem para seu desfecho trágico: o grande número de imigrantes vivendo em Londres batendo de frente com a paranóia crescente em relação aos ataques terroristas que vêm deixando a população britânica em estado de pânico. Em meio a tudo isso, conhecemos Jean Charles (Selton Mello) e sua prima, Vivian (Vanessa Giácomo). Oriundos de Gonzaga, uma pequena cidade de Minas Gerais, Jean está tentando subir na vida trabalhando de eletricista – e fazendo uns negócios escusos nas horas vagas – enquanto que Vivian pensa em juntar dinheiro para ajudar a mãe que sofre com o diabetes. Mas engana-se quem acha que a trama gira em torno apenas o brasileiro morto pela polícia inglesa. Mesmo levando o título de Jean Charles, o filme mostra a vida de diversos imigrantes que suam a camisa para juntar dinheiro e melhorar de vida. E é aí que o longa-metragem de Henrique Goldman se diferencia das demais cinebiografias.
Goldman tentou levar esse projeto para a BBC, mas acabou empacando com a emissora estatal britânica por causa do diferente foco que as duas partes pensavam para a história. Enquanto a BBC esperava por um filme policial, o cineasta brasileiro pretendia apresentar um panorama dos imigrantes em Londres, suas agruras, conquistas, inquietações. Nesse quesito, Jean Charles é um filme acima da média. Consegue mostrar com bastante precisão pelo que passam os brasileiros que se aventuram por outros países. As atuações do elenco, em geral, são bastante realistas, dando a impressão de que estamos vendo uma história verdadeira. Ponto para Henrique Goldman, que preferiu um elenco desconhecido para os papéis secundários, maximizando a impressão de realidade.
No lado oposto, bastante conhecido por seus papéis cinematográficos, Selton Mello está totalmente à vontade como Jean Charles. É um personagem que o ator sabe fazer com maestria – vide sua atuação em Meu Nome Não é Johnny, outra cinebiografia de sucesso. Esperto e com mania de grandeza, o Jean Charles de Selton Mello é um ser humano de carne e osso. Longe de ser um mocinho certinho, cheio de virtudes, Jean tem um bom coração, mas não pensa duas vezes antes de botar em prática o velho jeitinho brasileiro. Quando o conhecemos, aliás, temos uma mostra do desvio de caráter do personagem, no momento em que ele conta uma história emocionante para o departamento de imigração, só para depois os chamá-los de burros pelas costas. Isso, no entanto, não faz com que o espectador simpatize menos com Jean Charles. Pelo contrário. Por ser tão parecido com um brasileiro comum é que o acompanhamos com tamanho interesse e tristeza, já que sabemos de antemão o seu destino. Destaco aqui as cenas da última manhã de Jean Charles. Muito bem construídas, nos chamando a atenção para cada pequeno gesto e ação do personagem.
Acredito apenas que o filme poderia sofrer um novo corte, retirando algumas passagens menos interessantes e acrescentando mais da vida de Jean Charles na Inglaterra. Entendo que a idéia era manter a narrativa em sua prima, Vivian, a partir do momento em que ela chega em Londres. Mas talvez fosse mais inteligente que o roteiro se concentrasse um pouco mais em Jean Charles e no seu passado e menos em cenas que pouco contribuem para o andamento da história. De qualquer forma, Jean Charles acaba sendo um ótimo programa, carregado de emoção, com direito a um desfecho pungente, mas ainda assim, esperançoso.
Jean Charles Dir. : Henrique Goldman
Com Selton Mello, Vanessa Giácomo, Luis Miranda, Patrícia Armani, Sidney Magal e Daniel Oliveira
Cotação Paradoxo: Vale 80% do ingresso
Amanhã, em cartaz no Paradoxo:A Era do Gelo 3, nova aventura dos amigos pré-históricos Manny, Diego e Sid
Preview: Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas
Não precisava de um subtítulo tão grande. Mas tudo bem. O casal mais normal da televisão está voltando aos cinemas na continuação do bem sucedido primeiro longa-metragem, lançado em 2003. Gostava muito de acompanhar as desventuras de Rui e Vani na série global, que felizmente acabou muito antes de ficar repetitiva ou sem graça.
Ainda bem que temos no cinema uma forma de reencontrar nossos velhos amigos. Luis Fernando Guimarães e Fernanda Torres retornam aos seus papéis, desta vez querendo dar uma apimentada no relacionamento. Mas como qualquer noite normal deste casal, as coisas acabam não acontecendo como o planejado.
Só não espere muito do preview postado logo abaixo. Se existe algo que o cinema brasileiro ainda não aprendeu é como fazer um bom trailer. Entendo que a idéia era fazer algo um tanto tosco e "bombástico". Mas ficou ruim demais. Ao menos, algumas piadas parecem ser boas. E é o que, afinal de contas, realmente importa.
Confira logo abaixo.
Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas Estreia BRA: 28 de agosto
Dir.: José Alvarenga Jr.
Com Fernanda Torres, Luis Fernando Guimarães, Drica Moraes, Cláudia Raia, Daniel Dantas, Daniele Winits
Expectativômetro: 8/10
Amanhã, em cartaz no Paradoxo:Jean Charles, dirigido por Henrique Goldman e com Selton Mello no elenco
Clássico é clássico (e vice-versa) Rick’s Café Américain
You must remember this
a kiss is just a kiss
a sight is just a sight
The fundamental things apply
as time goes by
Sabe aqueles filmes que estão vivos no inconsciente coletivo de qualquer cinéfilo? Não é necessário ter assistido a Casablanca para conhecer esta memorável cena, na qual Ilsa Lund (Ingrid Bergman) pede docemente para seu amigo de outrora, Sam (Dooley Wilson), que toque a música que a faz lembrar sua velha e fulminante paixão. Da mesma forma, frases como Não arrisco meu pescoço por ninguém, Beije-me como se fosse a última vez e Louis, acho que esse é o começo de uma bela amizade são conhecidíssimas, mesmo para quem nunca o havia assistido.
Não era o meu caso. Em uma sessão especial de cinema em 1999, conferi pela primeira vez o clássico dirigido por Michael Curtiz. Mas confesso que não lembrava muita coisa, passados dez anos. Por essas e outras, o assisti novamente, agora em DVD, e posso dizer que Casablanca possui uma merecida fama de clássico absoluto.
O longa-metragem foi filmado e se passa durante a Segunda Guerra Mundial. No Marrocos, na cidade de Casablanca, uma pequena parte da França não ocupada, Rick Blaine (Humphrey Bogart) administra um bar/cassino e vive sua vida da forma mais cínica e vazia possível. Um de seus clientes, o gatuno Ugarte (Peter Lorre), consegue de forma criminosa dois salvo-condutos que podem tirar qualquer pessoa de Casablanca e os confia a Rick pouco antes de ser preso. Sem saber direito o que fazer com eles, Blaine os esconde no seu bar até achar um bom proveito para estes valiosos papéis.
Eis que entra em cena uma velha paixão do passado: Ilsa Lund (Bergman), acompanhada de seu marido, o revolucionário Victor Laszlo (Paul Henreid). Rick conheceu Ilsa em sua passagem pela França e se apaixonou completamente pela moça. Mas as coisas acabaram não dando muito certo para o casal, que teve de se separar quando os nazistas começaram a exercer seu poder dentro de Paris. Agora, Rick se vê novamente frente a frente com a mulher que o deixou no passado, possuindo sentimentos conflitantes que podem fazer com que ele perca tudo o que construiu em Casablanca.
Um filme que possui tantas famosas frases de efeito não poderia ter um roteiro abaixo do excelente. Todos os personagens ganham um pequeno destaque durante a narrativa, tendo seu momento de brilhar. Desde o barman do Rick’s Café Américain, até o escroque Ferrari, dono do bar concorrente de Rick, o Blue Parrot. Mas é lógico que os vértices do triângulo amoroso da história é que ganham o real destaque. Humphrey Bogart é o símbolo do cinismo no cinema. Seu personagem tem as melhores respostas para as perguntas mais cretinas. Seu rosto sempre blasé e suas atitudes nem sempre confiáveis constroem muito bem o caráter daquele homem. No outro lado, temos um Victor Laszlo galante e impetuoso, uma figura que transparece coragem e ousadia. Mas nem com isso, consegue ganhar completamente o coração de Ilsa, interpretada de forma singela por uma jovem Ingrid Bergman. Quem rouba muitas cenas é Claude Rains com seu rasteiro, porém simpático, capitão Renault. Um sujeito sem muitos escrúpulos, pendendo sempre para o lado que está ganhando, mas ainda assim interessantíssimo de assistir em cena.
Em suma, Casablanca é um daqueles clássicos imortais. Com um elenco afinado, música memorável, roteiro impecável e direção segura, o longa-metragem pode ser apontado, sem sombra de dúvidas, como um dos melhores filmes produzidos por Hollywood nos seus anos dourados. Eu, que não arrisco meu pescoço por ninguém, digo isso sem medo algum de errar.
Casablanca Dir.: Michael Curtiz
Com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Dooley Wilson e Peter Lorre
Cotação Paradoxo: Vale 100% do ingresso
Amanhã, em cartaz no Paradoxo: Preview de Os Normais 2 – A Noite mais Maluca de Todas, longa-metragem dirigido por José Alvarenga Jr. Trazendo de volta o casal Rui e Vani
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood está tentando de tudo para que a cerimônia de entrega de seus prêmios seja a mais interessante possível. Neste ano, já observamos algumas mudanças pontuais no estilo da premiação – algumas bacanas, outras nem tanto. Hugh Jackman como host funcionou, a entrega dos grandes prêmios de atuação, com uma seleta junta de astros e estrelas a apresentando, também. Mas ainda continuam os problemas no relógio, com a cerimônia batendo as três horas de duração, e a sisudez habitual do Oscar.
Não sei quanto destes problemas serão sanados na próxima cerimônia, a 84ª da história da Academia. Mas sei que o pessoal de lá está trabalhando para que as novidades em 2010 sejam interessantes o suficiente para que os espectadores retornem às poltronas para ver aquele grupo de profissionais da sétima arte se congratular.
A primeira, e mais bombástica, é a expansão do número de indicados à Melhor Filme, de 5 para 10. Segundo o presidente da Academia, Sid Ganes, a mudança visa dar chance a um maior número de filmes, que geralmente ficavam de fora no último minuto. É bom lembrar que, no passado, o Oscar já indicava dez filmes para o páreo. Nas primeiras festas da Academia era prática vigente. Aliás, em dois anos, 1934 e 1935, foram 12 os postulantes ao prêmio máximo. Só em 1944 a Academia resolveu diminuir o número de concorrentes.
Vejo com bons olhos esta “novidade”. Praticamente, não mudará nada, já que continuará sendo premiado apenas um filme e ele, sozinho, será o grande vencedor da noite. No entanto, o fato de serem 10 indicados dá realmente uma chance para produções que sempre beliscavam a categoria, finalmente aparecer. Caso fossem dez os indicados nos últimos anos, certamente teríamos na categoria principal filmes como Batman – O Cavaleiro das Trevas, Wall•E, Na Natureza Selvagem, Ratatouille, O Escafandro e a Borboleta, Vôo United 93, entre muitos variados títulos.
Vale lembrar que em outra premiação famosa, já são 10 os indicados. Estou falando do Globo de Ouro. É bem verdade que lá existe a divisão entre Drama e Comédia/Musical, mas são dez produções que, afinal, concorrem aos prêmios principais da noite. Claro que neste caso não há um único vencedor, o que iria contra a tradição da Academia. Ainda assim, foi uma tentativa – a meu ver, bem sucedida – de dar espaço para algumas produções que talvez nunca fossem indicadas a grandes premiações. E aqui não faço defesa de filmes ruins. Mas é notório que comédias são sempre sobrepujadas por dramas, como se fosse menos inteligente ou interessante fazer rir. Qual foi a última boa comédia que ganhou um Oscar? Quem pensou em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, em 1978, acertou. (Shakespeare Apaixonado, em 1999, está longe de ser uma boa comédia e Chicago, em 2003, mesmo cômico, é um musical)
Outra novidade – que já estranhei neste ano – é o menor número de indicações a Melhor Canção Original. Em 2009, foram apenas três indicados – e até agora não entendi a falta de Bruce Springsteen e a belíssima The Wrestler. A partir do ano que vem, as canções só serão indicadas quando atingirem uma nota mínima, de 8,25, entre 6 e 10. Esta nota será atribuída pelos mais de 200 votantes desta categoria. Ou seja, se nenhuma canção atingir esse nível, é possível que não haja uma Melhor Canção Original em 2010. Isso só pode ser uma resposta da Academia ao baixo nível das últimas composições.
Por fim, os prêmios honorários deverão ser entregues em um dia diferente, da mesma forma que já acontece com alguns prêmios técnicos, para deixar a cerimônia mais dinâmica. Ou seja, aqueles discursos longos e chatos serão limados pela edição do programa, nos deixando apenas o mais importante e emocionante destes momentos.
Agora, se todas estas mudanças realmente transformarão a festa da Academia em uma cerimônia mais curta e divertida, só em março do ano que vem para saber. O que já dá para apostar é que será mais difícil tentar acertar o grande vencedor da noite. Com 10 indicados, a probabilidade de acerto é bem mais baixa. A não ser, claro, que surja até lá um barco enorme e inaufragável ou uma sociedade do anel disposta a eliminar uma força do mal que seja a grande barbada da noite.
Amanhã, em cartaz no Paradoxo:Casablanca, um dos grandes clássicos do cinema, com Humphrey Bogart e Ingrid Bergman
Não é difícil imaginar porque Desejo e Perigo fez tanta polêmica na China. O novo longa-metragem do diretor taiwanês Ang Lee não se furta em mostrar cenas explícitas de sexo e ainda toca em um assunto espinhoso como a política. Para se ter uma idéia do tamanho da confusão que o filme causou no seu país, a atriz que interpreta a protagonista Wong Chia Chi, Wei Tang, foi banida da televisão e seus anúncios para uma marca de perfumes foram proibidos de serem veiculados. Isso, claro, não impediu de o filme fazer bonito nas bilheterias de Hong Kong. O que uma pequena polêmica não faz para a bilheteria de um filme, certo?
Durante a Segunda Guerra Mundial, um grupo de teatro engajado politicamente resolve montar o maior espetáculo de suas vidas: um assassinato. O desejo do grupo é matar o traidor político Mr. Yee (Tony Leung Chiu-Wai). Mas para serem bem sucedidos no intento, precisarão se infiltrar em sua vida. É aí que a tímida Wong Chia Chi (Tang) ganha destaque. Com o pseudônimo de Mak Tai Tai, a atriz se torna amiga da esposa de Yee – com quem sempre joga mahjong – e, com isso, consegue paulatinamente se aproximar do inimigo. Quando a aproximação vira um caso amoroso, Chia Chi descobre que seu envolvimento com aquele homem pode ser muito mais perigoso que imaginava.
Com uma metragem bastante avantajada, Ang Lee parece querer dar tempo para a história desenvolver-se. Nada é apressado. Vemos todo o caminho que a jovem percorre para ganhar a confiança de Mr. Yee, fator preponderante para que sua missão seja bem sucedida. Desta forma, as quase duas horas e meia de projeção são justificadas. Porém, mesmo com motivos, não dá para se dizer que Desejo e Perigo é um filme na medida. Certamente alguns trechos poderiam ter ficado na sala de edição, sem nenhum prejuízo para a trajetória da espiã-atriz. Para se contar uma história longa, é preciso saber prender o espectador. E, infelizmente, Ang Lee não consegue fazer isso por tanto tempo.
Mesmo assim, o filme possui bons momentos, que nos fazem perdoar o autor pela longa duração da história. Ang Lee nos apresenta um trecho da história interessante, nos mostrando um retrato da China durante a Segunda Guerra. O cuidado com a reconstituição de época é primoroso e o trabalho com o elenco é digno de nota. O destaque vai para a dupla principal, que consegue carregar o filme nas costas. A jovem atriz Wei Tang sofre uma transformação drástica durante a trama e, devido à maquiagem e sua postura em cena, até parece outra pessoa no desenrolar da história. Já Chiu-Wai parece sempre austero e muito centrado quando está junto de sua esposa e amigas. Mas suas feições mudam quando está a sós com Mak Tai Tai. Esta mudança não é apenas perceptível quando ele está na cama com a amante, nos momentos em que assume uma postura mais rude. Ela pode ser notada também quando Yee começa a se encantar realmente com a garota, até sorrindo e batendo palmas diante de uma canção interpretada por ela.
Depois de assistirmos a tantos filmes mostrando o lado alemão, norte-americano, francês, japonês ou inglês da Segunda Guerra, é interessante assistir a Desejo e Perigo e observar o que acontecia na China, mesmo que a Guerra esteja ali apenas como pano de fundo. Não fosse tão longo, o trabalho de Ang Lee seria certamente mais recomendável.
Desejo e Perigo (Se Jie) Dir.: Ang Lee
Com Tony Leung Chiu-Wai, Wei Tang, Joan Chen, Wang Lee-Hom
Cotação Paradoxo: Vale 70% do ingresso
Na próxima semana, em cartaz no Paradoxo: Cinema e Afins #35; Budapeste, adaptação da obra de Chico Buarque pelo diretor Walter Carvalho; Seção Preview; Intrigas de Estado, novo filme de Kevin Macdonald; Podcast Paradoxo;
Quando criança, Oliver Stone deve ter sonhado em morar na Casa Branca. Talvez isso explique a fascinação que o cineasta tem pelos presidentes dos Estados Unidos. No passado, o diretor já trouxe à tona a história do assassinato de John F. Kennedy, em JFK, e uma controversa cinebiografia sobre Richard Nixon, estrelada por Anthony Hopkins. Não satisfeito em comandar Nixon, produção sobre um dos mais odiados políticos da história dos Estados Unidos, Oliver Stone resolveu mostrar a história de quem, talvez, seja o mais detestado ex-presidente de toda a América: George W. Bush. E o resultado, diferente do biografado, é bem interessante.
Em W., Oliver Stone remonta a trajetória do Bush filho (Josh Brolin) desde sua primeira passagem pela faculdade, até sua atrapalhada invasão ao Iraque, já eleito presidente. Conhecemos os vícios e os defeitos do político, como sua tendência a beber e a sua irresponsabilidade inata, até as qualidades que o transformaram em governador do Texas e presidente dos Estados Unidos. Figuras importantes na sua vida como o pai, o também ex-presidente George Bush (James Cromwell), e sua equipe da ala oeste da Casa Branca, como Colin Powell (Jeffrey Wright), Condoleezza Rice (Thandie Newton), Donald Rumsfeld (Scott Glenn), Karl Rove (Toby Jones) e o vice-presidente Dick Cheney (Richard Dreyfuss) também são retratados, em uma reconstituição de altíssima competência. É possível acreditar no que estamos vendo e isso é parte importante do processo de assistir a um filme baseado em fatos reais.
Um dos “culpados” dessa grande verossimilhança é Josh Brolin e sua ótima personificação de George W. Bush. A composição do ator está perfeita, desde o jeito de andar e falar quanto os seus olhos miúdos e pouco perspicazes. Não o considerava tão parecido com o ex-presidente, tanto que estranhei sua escalação na época que surgiu a notícia. Mas nada que um pouco de maquiagem e um corte de cabelo correto não façam o serviço. Em algumas tomadas, principalmente nas que o presidente é retratado em coletivas de imprensa, Brolin está uma imagem fiel do Bush filho. E isso faz toda a diferença na hora de assistirmos ao filme, para que compremos a idéia de que estamos acompanhando a história de uma figura tão conhecida quanto o residente chefe da Casa Branca.
Outros destaques que poderia apontar do elenco são os trabalhos de Richard Dreyfuss, como o vice Dick Cheney, e James Cromwell, como o “pappy” do presidente. Dreyfuss – que deveria trabalhar bem mais em Hollywood - está competente como sempre ao interpretar um vice-presidente que, por vezes, precisa ser parcimonioso para conseguir se fazer ouvir pelo seu comandante e chefe. Mostrando ter pulso firme em suas certezas, Cheney tem muito mais poder dentro da Casa Branca que poderíamos imaginar. Enquanto isso, Cromwell ganha pontos muito mais por se mostrar um sujeito respeitável do que por reencarnar o ex-presidente. Suas críticas ao comportamento errático do filho o transformam em um pai de verdade, e a severidade de suas reprimendas criaram um W. Bush como o conhecemos.
Tenho algumas ressalvas quanto Thandie Newton interpretando Condoleezza Rice, soando um tanto caricatural, assim como Jeffrey Wright e seu Colin Powell. Do outro lado do espectro, o primeiro ministro britânico Tony Blair tem uma caracterização tão abaixo do esperado, interpretado pelo fraco Ioan Gruffudd, que só fui entender que aquele homem era o todo poderoso do Reino Unido quando Brolin o chamou insistentemente de Tony.
Mas este não é o maior problema de W.. Alguns momentos-chave da administração do presidente, como a queda das Torres Gêmeas, são totalmente deixados de fora da trama. É uma falta gigantesca para entendermos todo o contexto da presidência de Bush. Mesmo que o fato seja citado mais de uma vez, nada substitui o momento em si. Também se pode dizer que Oliver Stone doura a pílula na hora de retratar os defeitos de George W. Bush, o tornando muito simpático para a audiência. Não acho que ele seja um monstro, como boa parte do mundo o pinta. Mas não o considero também o moço de bom coração que assistimos em boa parte da narrativa.
Porém, isso não transforma W. em um filme menos interessante – e menos crítico. Stone deixa no roteiro diversos momentos que mostram George W. Bush totalmente perdido – tanto em relação a sua vida, quanto a sua presidência. Vemos o quão obtuso e influenciável podia ser o ex-presidente dos Estados Unidos. E isso em pequenas cenas, como a ótima sacada do sanduíche e com a emblemática seqüência na qual Bush guia seus assessores a lugar algum em um campo aberto.
No fim das contas, W. não é o melhor trabalho de Oliver Stone, mas tem qualidade suficiente para uma conferida mais atenta. Para quem pensava que seriam 127 minutos na companhia de um sujeito detestável, até que o tempo passa bem rápido.
W. Dir.: Oliver Stone
Com Josh Brolin, Elizabeth Banks, James Cromwell, Jeffrey Wright, Thandie Newton, Scott Glenn, Toby Jones, Richard Dreyfuss e Ellen Burstyn
Cotação Paradoxo: Vale 75% do ingresso
Amanhã, em cartaz no Paradoxo:Desejo e Perigo, filme de Ang Lee que finalmente estreia no Rio Grande do Sul
- Provavelmente você ouviu que não estamos no negócio de fazer prisioneiros. Estamos no negócio de matar nazistas. E, amigo, o negócio está expandindo. (Tenente Aldo Raine)
Como um fã do cinema de Quentin Tarantino, sempre fico bastante curioso para conferir um novo trabalho assinado pelo cineasta. E Bastardos Inglórios parece ser um excelente novo capítulo na carreira do diretor de Cães de Aluguel e Pulp Fiction.
Este roteiro está nos planos de Tarantino há muito tempo, foi falado por anos a fio e finalmente terá sua estreia. Na verdade, quem esteve em Cannes já pôde assistí-lo, pois ele participou da mostra competitiva pela Palma de Ouro. E saiu premiado. Christoph Waltz, que vive o coronel Hans Landa, levou o prêmio de Melhor Ator.
Mas como nem tudo são flores, é bem provável que a versão exibida no festival francês não seja a mesma que chegará aos cinemas. A Weinsten Company, produtora do filme, pediu para Tarantino cortar alguns minutos dos 160 que a versão de Cannes teve. Para nós brasileiros, se lançarem o longa-metragem já será uma alegria e tanto. Cadê À Prova de Morte? (sempre perguntarei isso quando surgir oportunidade)
Confira o trailer logo abaixo de Bastardos Inglórios.
Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds) Estreia EUA: 21 de agosto de 2009
Estreia BRA: 23 de outubro de 2009
Dir.: Quentin Tarantino
Com Brad Pitt, Mélanie Laurent, Eli Roth, Christoph Waltz, Michael Fassbender, Diane Kruger, B.J. Novak, Mike Myers
Expectativômetro: 10/10
Amanhã, em cartaz no Paradoxo:W., cinebiografia do ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush, dirigida por Oliver Stone
Se existe uma certeza no mundo do cinema é essa: será impossível fazer uma refilmagem de valor de qualquer filme de Alfred Hitchcock. As tentativas que já vimos no passado foram todas rasteiras, para dizer o mínimo. Simplesmente não é possível recriar trabalhos tão bem realizados pelo Mestre do Suspense. A não ser, claro, que o próprio Hitchcock ponha as mãos na massa e retrabalhe um de seus clássicos. Foi assim em 1956, quando o cineasta, já filmando em Hollywood, dirigiu o remake de O Homem que Sabia Demais, lançado originalmente em 1934, em sua fase inglesa. Com uma produção mais aprimorada e com James Stewart encabeçando o elenco, esta pode ser uma das poucas refilmagens de um filme de Hitchcock que valham a pena serem assistidas.
Por incrível que pareça, essa qualidade da produção de 1956 acabou tendo um lado negativo. Eclipsou o longa-metragem de 1934, que ficou bem menos conhecido que seu irmão rico. Mesmo que o próprio Hitchcock tenha achado motivos suficientes para um polimento da trama em uma produção mais refinada no futuro, O Homem que Sabia Demais original possui diversas qualidades que saltam aos olhos.
Para quem não conhece a trama, lá vai: o casal Bob (Leslie Banks) e Jill Lawrence (Edna Best) está em férias nos Alpes Suíços junto com sua filha, Betty (Nova Pilbeam). Durante o jantar, o casal testemunha a morte de Louis Bernard (Pierre Fresnay) que, em suas últimas palavras, confidencia um segredo perigoso: um assassinato acontecerá em Londres e eles são os únicos que podem fazer algo para evitar. A tarefa não será fácil, já que o mandante do crime, Abbott (Peter Lorre), decide sequestrar a filha do casal para que os dois silenciem sobre o futuro atentado. Agora, os pais de Betty precisarão descobrir o paradeiro da filha, envolvendo-se em uma trama perigosa.
Em muitos aspectos, a segunda versão de O Homem que Sabia Demais é superior à primeira tentativa de contar esta história. No entanto, o longa-metragem de 1934 tem um trunfo que pesa bastante a seu favor: o vilão. Interpretado por um Peter Lorre de sotaque arrastado, o nêmesis da família Lawrence é muito mais interessante e ameaçador, mesmo que sempre tenha uma expressão amistosa em seu rosto. Sua caracterização, com direito a mecha grisalha e cicatriz na testa, agrega muito ao personagem, assim como suas vestimentas pesadas. Conhecido na época pelo seu papel emblemático no clássico do cinema alemão M – O Vampiro de Dusseldorf, Lorre interpreta novamente um bad guy – papel que faria muitas e muitas outras vezes em seus mais de trinta anos de carreira – e é o grande destaque desta versão. Até porque os mocinhos são um tanto insossos em comparação.
O clima de suspense de O Homem que Sabia Demais é palpável em boa parte da narrativa e ganha um plus pela fotografia em preto e branco. O lado cômico, tão presente em alguns clássicos de Hitchcock, também dá as caras neste trabalho, personificado pelos diálogos entre Bob e seu amigo Clive (Hugh Wakefield). O clímax no Albert Hall é muito bem trabalhado, com a câmera se movimentando hora em círculo, mostrando a procura de Jill pelo assassino, hora destacando a orquestra, que tem um papel importantíssimo nessa cena. O suspense, no entanto, se esvai na sequência final, do tiroteio, dando espaço para uma ação bang-bang extensa, que destoa do resto do filme. Parece-me que Hitchcock ainda estava procurando por seu estilo, sucumbindo a uma cena que pouco contribui para a história.
Em entrevista ao crítico e diretor francês François Truffaut, Hitchcock disse que sentiu necessidade em fazer uma nova versão de O Homem que Sabia Demais porque a primeira era uma obra de um talentoso amador, enquanto que a segunda seria feita por um profissional. Não deixa de ser interessante para um fã do Mestre do Suspense – ou do cinema em geral – observar estes dois momentos distintos do cineasta e notar que ambos possuem qualidades que se destacam.
O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew too Much) – Versão de 1934
Dir.: Alfred Hitchcock
Com Leslie Banks, Edna Best, Peter Lorre, Frank Vosper, Pierre Fresnay, Hugh Wakefield, Nova Pilbeam
Cotação Paradoxo: Vale 85% do ingresso
Amanhã, em cartaz no Paradoxo: Preview de Bastardos Inglórios, novo filme de Quentin Tarantino
Listas são sempre discutíveis, mas também bastante divertidas de se acompanhar. Os britânicos que o digam, já que são verdadeiros campeões em criar os mais diversos dez mais de alguma coisa. No entanto, a última lista divulgada na internet que me chamou a atenção não é originária da terra da Rainha, e sim dos Estados Unidos. A Paste Magazine elegeu os 25 filmes estrangeiros mais interessantes desta última década e os divulgou no seu site oficial. E a nossa prata da casa, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, figura nesta lista, em uma respeitosa quarta colocação.
Qual a importância disso para o cinema brasileiro? Nenhuma, na verdade. Até sei que existem pessoas que vão atrás de listas de filmes essenciais para pautar suas próximas sessões no DVD player de casa. Mas nesse caso específico, não acredito que haverá uma tresloucada procura pelo filme, visto que a revista Paste nem tem uma relevância tão grande para ser referência de alguma coisa. Tendo isso bem claro em mente, a escalação do filme brasileiro na lista da Paste não deixa de ser bacana, até para observamos o quão elevado é o status de Cidade de Deus junto à imprensa estrangeira.
Para defender a eleição do filme de Fernando Meirelles na quarta posição, a Paste relembrou o quanto os cinéfilos do mundo ficaram surpresos ao observar que o desconhecido Cidade de Deus havia abocanhado quatro indicações ao Oscar, incluindo o de melhor diretor. “Em retrospecto, as indicações foram um daqueles raros e surpreendentes momentos de lucidez por parte da Academia, que coloca nos holofotes um filme que merece atenção”, afirma o texto da Paste. Nós, brasileiros, sabemos que este “momento de lucidez” demorou a acontecer, já que Cidade de Deus havia sido ignorado no ano anterior, não figurando nem entre os cinco indicados a Melhor Filme Estrangeiro.
A Paste continua os elogios ao longa-metragem brasileiro dizendo que não são necessários prêmios para que Cidade de Deus mereça um espaço na história do cinema. A publicação argumenta que a produção é o melhor tipo de obra-prima, pois vem de um “talento desconhecido vindo de um lugar improvável”. Ou seja, só em 2004 eles descobriram que o Brasil, além de ser a terra do carnaval e do futebol, também sabe fazer cinema.
O pódio da lista da Paste é o seguinte: O Labirinto do Fauno, do México, dirigido por Guillermo Del Toro; O Tigre e o Dragão, da China, assinado por Ang Lee; e O Escafandro e a Borboleta, produção francesa de Julian Schnabel; Notem que Cidade de Deus ficou atrás de duas produções com diretores bem mais conhecidos nos Estados Unidos: Del Toro, que agora é o responsável pela saga de J.R.R. Tolkien no cinema, e Ang Lee, que dirigiu o polêmico – e por isso famoso - O Segredo de Brokeback Mountain.
Como não assisti a O Labirinto do Fauno não tenho como concordar ou discordar de sua primeira colocação. Por outro lado, acho O Escafandro e a Borboleta um filme bem mais interessante que O Tigre e o Dragão. E Cidade de Deus muito melhor que estes dois. Não é questão de brasilidade ou de proteger o cinema nacional. Apenas o considero um filmaço, que bate qualquer um dos 25 filmes essenciais listados pela Paste (falo dos que eu assisti. Da lista, vi metade).
A própria publicação norte-americana afirma que esta é uma lista pequena e sem maiores pretensões. Ainda assim, serve como um guia para iniciantes. Alguém que nunca se prestou a assistir a um filme de língua não-inglesa poderia se dar bem escolhendo algum destes 25. E bem sabemos que, nos Estados Unidos, a falta de vontade em ler legendas é uma dos principais inimigos de produções estrangeiras. Quem quiser conferir a lista completa da Paste, pode dar uma olhada neste link.
Amanhã, em cartaz no Paradoxo:O Homem que Sabia Demais, clássico de Alfred Hitchcock
Nesta edição do Podcast Paradoxo, falo sobre a nova revista Set, que chegou recentemente às bancas de todo o país. Com novo editor e um grupo novo de colaboradores, a publicação parte para um novo momento em sua trajetória de 22 anos. No fim do papo, música de trilha sonora, como sempre.
Na última edição, que rolou por aqui há quase um mês, a música foi "Supermassive Black Hole", do Muse, da trilha do filme Crepúsculo.
Na próxima semana, em cartaz no Paradoxo: Cinema e Afins; Intrigas de Estado, novo filme de Kevin Macdonald; Seção Preview; W., cinebiografia do ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush, dirigida por Oliver Stone; Podcast Paradoxo #26;